Cherreads

Chapter 4 - Capítulo: O Início do Trio

Na hora do recreio, afastei-me do burburinho dos filhos de diplomatas e herdeiros que competiam para ver quem tinha o videogame portátil mais caro. Meu foco estava perto dos bancos de carvalho, onde uma situação peculiar se desenhava.

Um garoto loiro, vestindo o uniforme da escola com um desleixo calculado, encarava três alunos mais velhos que tentavam cercá-lo. Pelo relógio de grife no pulso e a postura imponente, reconheci James Vance — o filho caçula de um dos maiores magnatas do setor imobiliário da cidade. Os veteranos claramente queriam intimidá-lo por ser novato, mas James nem piscava; ele tinha os punhos cerrados, pronto para a briga, exibindo um físico atlético incomum para os seis anos.

Um pouco mais afastada, encolhida no banco com um caderno de desenho no colo, estava uma garotinha de traços asiáticos e óculos redondos. Chloe Zhang. Minha mente processou o que ela escrevia na folha: não eram desenhos, eram equações de álgebra avançada mascaradas como rabiscos. Ela estava tremendo, assustada com a iminente briga de James.

Dois alvos perfeitos, pensei, o canto da minha boca se curvando em um sorriso. Hora de agir.

Caminhei calmamente até o grupo de veteranos. Antes que o líder deles pudesse empurrar James, usei discretamente um fragmento da minha inteligência aprimorada para calcular o ângulo perfeito e simulei um tropeço, esbarrando "sem querer" no braço do valentão. O suco de caixinha que eu segurava espirrou inteirinho na camisa branca impecável do garoto.

— Opa! Que bobeira a minha, desculpa aí — comentei, com a voz mais inocente do mundo.

— Ficou maluco, pirralho?! — o veterano rugiu, esquecendo James e olhando para a própria camisa manchada de uva.

— Se eu fosse você, iria direto para o banheiro — sugeri, mantendo o tom calmo. — O suco de uva da Hillcrest tem corante artificial concentrado. Se passar de dois minutos no tecido, a mancha fixa para sempre. E a sua mãe vai descobrir que você estava arrumando briga em vez de ir para a sala de artes.

O garoto piscou, processando a informação com uma lentidão que me deu quase pena (efeito de ver o mundo quarenta vezes mais rápido). Olhou para os amigos, olhou para a camisa e, praguejando, saiu correndo em direção aos lavatórios, sendo seguido pelo resto do bando.

James Vance relaxou os punhos e me encarou, os olhos semicerrados com uma mistura de respeito e desconfiança.

— Você tem coragem, cara. Mas eu dava conta deles.

— Eu sei que dava — respondi, estendendo a mão. — Mas por que gastar energia com idiotas quando a gente pode gastar com coisas mais interessantes? Sou Bruce. Bruce Hastings.

James olhou para a minha mão e abriu um sorriso de lado, apertando-a com força.

— James.

Virei-me para o banco, onde Chloe nos observava com os olhos arregalados atrás dos óculos. Aproximei-me e apontei para o caderno dela.

— A propósito, a terceira linha da sua equação ali... Se você isolar o X antes de aplicar a raiz, o resultado flui melhor. Você ganha tempo.

Chloe deu um sobressalto, corando instantaneamente, mas olhou para o papel e depois para mim, chocada por um garoto da idade dela ter entendido aquilo.

— V-Você... você sabe cálculo? — ela gaguejou, a timidez quase bloqueando a voz.

— Gosto de números. E acho que nós três não nos encaixamos muito no padrão dessa escola — respondi, sentando-me no banco e abrindo espaço para James, que se juntou a nós com os braços cruzados, curioso. — O que acham de passarmos o resto do recreio planejando como dominar esse lugar?

James soltou uma gargalhada alta, e Chloe permitiu-se dar um pequeno sorriso, abraçando o caderno com menos força. Ali, no pátio de uma escola de elite em São Francisco, a engrenagem do destino havia começado a girar. Nós seríamos inseparáveis.

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