Os anos seguintes ao colapso da Vanguard e da OmniTek foram, por escolha de Bruce, os mais pacíficos possíveis. O dinheiro que o trio havia acumulado na carteira de criptoativos foi deixado de lado, rendendo juros em contas fantasmas que Chloe monitorava. Eles tinham doze, treze, e finalmente catorze anos. Era hora de enfrentar o verdadeiro teste de sobrevivência: o início do Ensino Médio na Academia Hillcrest.
Para os pais de Bruce, Emi e William, ele ainda era apenas o filho prodígio, embora estivesse crescendo rápido demais.
— Bruce, se você esticar mais um pouco, vai ter que abaixar para passar pela porta da cozinha! — William brincou, deixando um prato de ovos mexidos na mesa.
William agora tinha fios grisalhos no cabelo, mas o sorriso continuava o mesmo. Ele olhava para o filho com um mistulho de orgulho e perplexidade. Graças ao seu corpo adaptável, Bruce havia completado quatorze anos com impressionantes 1,85m de altura, ombros largos e uma postura imponente. Seus cabelos castanhos eram bem cortados, e os olhos azuis puxados de Emi tinham uma clareza que parecia ler a alma das pessoas.
— É a comida da mãe, pai — Bruce respondeu com um sorriso, sentando-se à mesa. — O metabolismo está acelerado.
Emi saiu da cozinha limpando as mãos no avental, com o cheiro doce de baunilha que sempre a acompanhava por causa da confeitaria. Ela abraçou Bruce por trás, precisando ficar na ponta dos pés.
— Não importa o tamanho que você fique, ainda é o meu menino — ela disse, dando um beijo em sua bochecha. — Só não mude o foco dos estudos por causa de esportes ou... garotas. Nós sabemos como a Hillcrest pode ser competitiva nessa idade.
— Pode deixar, mãe. Meu foco continua o mesmo.
Bruce sentia um calor genuíno naquelas manhãs. Na sua vida passada, o hospital era um lugar frio e solitário. Ali, ele tinha uma família de verdade, que se importava com ele. Seu fator de cura e sua mente aprimorada garantiam que ele nunca ficasse doente e que tirasse notas máximas sem esforço, dando aos pais a vida tranquila que eles mereciam.
Mais tarde, o ônibus da escola o deixou em frente à Hillcrest. O Ensino Médio havia trazido novas regras sociais. Os grupinhos de infância haviam se tornado panelinhas mais agressivas, divididas entre os atletas ricos, as herdeiras da moda e os CDFs isolados.
Mas o trio permanecia inabalável.
James já o esperava perto dos armários, girando uma bola de basquete no dedo. Ele tinha se tornado o capitão do time júnior, incrivelmente popular, mas bastava ver Bruce para largar a pose de atleta marrento.
— E aí, grandão — James cumprimentou, batendo no ombro de Bruce. — O treino de ontem na casa de barcos acabou comigo. Que técnica de imobilização foi aquela que você me ensinou? Meu braço tá doendo até agora.
— Só mecânica corporal básica, James — Bruce riu. Ele usava sua inteligência aprimorada para analisar artes marciais e repassar os movimentos perfeitos para James, mantendo o amigo como um escudo físico impecável.
Chloe chegou logo em seguida, abraçando seus livros. Ela havia trocado os óculos redondos por lentes de contato e deixado o cabelo crescer, mas a timidez clássica continuava ali — exceto quando estava com eles.
— Eu terminei de criptografar nossa rede de comunicação local — Chloe murmurou para os dois, enquanto caminhavam para a sala de aula. — Agora, mesmo se a escola tentar monitorar o Wi-Fi, nossas mensagens passam como ruído estático. Ninguém consegue ler.
— Ótimo trabalho, Chloe — Bruce elogiou, fazendo-a dar um sorriso contido.
Para o resto da escola, eles eram apenas três amigos de infância que andavam juntos. Ninguém imaginava que o garoto popular do basquete, a menina quieta da primeira fileira e o jovem gigante de olhos azuis compartilhavam segredos que poderiam derrubar o prefeito de São Francisco.
Na hora do almoço, sentados sob a sombra de uma grande árvore no gramado da escola, longe dos outros alunos, James olhou para o céu e suspirou.
— Cara... é estranho, né? Todo mundo aqui preocupado com quem vai convidar para o baile de outono ou com a nota de álgebra, e a gente sabendo o que tem no submundo dessa cidade. Às vezes sinto falta da adrenalina daquela invasão na OmniTek.
Bruce bebeu um gole de seu suco, observando o movimento do pátio. Com sua mente processando tudo de forma acelerada, ele conseguia ver o valor daqueles momentos simples.
— A OmniTek e os negócios podem esperar, James. Nós temos quatorze anos. Essa é a única chance que temos de ser... normais. Vamos construir nossa base aqui. Quando o Ensino Médio acabar, o mundo vai ser nosso. Mas por enquanto? Vamos focar em passar na prova de biologia e ver o jogo de basquete do James na sexta-feira.
James riu, concordando, e Chloe encostou a cabeça no ombro de Bruce, observando o dia ensolarado. O futuro brilhante e tecnológico da Arasaka estava guardado na gaveta. O presente pertencia à juventude deles.
