Cherreads

Chapter 6 - Arco 2: A QUEDA, Edição #5: O RENASCIMENTO pt1

Parte 1

Página 1

Em frente ao bar.

Altas horas da madrugada.

Rua da Lapa, 3h da manhã.

O barulho do bar agora é um zumbido distante.

O chão de pedras portuguesas brilha sob a luz amarela dos postes.

Vanessa e Gabi saíram, ambas visivelmente bêbadas, rindo e se apoiando uma na outra para manter o equilíbrio.

VANESSA

— Hahaha! Segura a onda, amiga! O chão tá mexendo!

GABI

— O chão tá parado, Ruiva! Você que tá com o giroscópio pifado!

A pista principal não apareceu. Mas, para uma boa repórter, um nome já é um banquete.

Um close-up no rosto de Vanessa mostrou que ela estava feliz, os olhos brilhando pela bebida e pela vitória.

Ela segurava o papel com o nome de JC como se fosse um tesouro.

— A gente tem um nome, Gabizinha... Um nome!

— João Carlos de Andrade M.

— Não é o endereço, mas é um começo... Um puta começo! Hic!

Gabi, com uma habilidade impressionante para quem estava bêbada, encostada no poste, digitando com um olho fechado para focar.

Ao lado, um "Boy Magia" sorri, piscando para ela enquanto se afasta.

Ela acena com a mão livre.

Um rapaz bonito retribui com um sorrso, claramente satisfeito por ter dado seu número a ela.

— Calma, bebê... Tô só... cadastrando novas "fontes" no banco de dados.

— Pra... pautas futuras.

- Investigação profunda, sabe?

Vanessa riu, balançando a cabeça. Olhou para o celular, esperando o Uber.

— Sei... "Investigação profunda".

— Tu tá é expandindo tua rede de "ativos", sua safada. O cara nem sabe onde tá se metendo.

As duas amigas ficaram na calçada, sob a luz de um poste.

Gabi guardou o celular e passou o braço pelos ombros de Vanessa.

Elas olhavam para a rua vazia, esperando o carro, juntas e com uma nova esperança.

A noite terminava, por enquanto, em vitória para elas.

O Uber chega (luzes ao fundo). Gabi abraça Vanessa de lado. As duas entram no carro, unidas pelo álcool e pela missão.

GABI

— A vida é curta e a noite é uma criança, Nessa.

— A gente achou o nome do fantasma e eu achei um moreno cheiroso. O placar tá 2 a 0 pra gente.

— Vitória total!

Pagina 2

O Chamado do Sacudo

No loft luxuoso naquela mesma noite enquanto umas tomam um chá de cadeira, outros se perdem em suas lembranças.

O ar condicionado zumbia baixo, contrastando com o caos mental de seu ocupante.

JC estava largado no sofá de design italiano, olhando para o teto alto como se esperasse que ele desabasse sobre sua cabeça e acabasse com tudo. Era a imagem da derrota.

Seu celular vibrou no estofado ao seu lado.

Ele olhou para a tela sem vontade e viu o nome brilhar: "SACUDO".

JC encara o visor. O suspiro dele esvazia o pulmão inteiro. Ele não quer falar, mas o silêncio dói mais.

Ele atendeu e joga no viva voz.

— Fala, Perna de Três.

— O que tu manda essa hora?

Do outro lado da linha, num ambiente iluminado por luzes LED e cheio de monitores, o rosto animado de Valtinho apareceu na mente do ouvinte.

— "Perna de Três"! Hneh-hneh-hneh! Clássica!

— Até que enfim, seu Cara-Concha! Tu tava em que dimensão, maluco? Nárnia?

JC não entrou na brincadeira.

Não tinha energia para manter a máscara social.

— Sem gracinha, Valter. Desenrola. Tô sem paciência.

 

 

A animação de Valtinho era blindada.

— Qual foi, sumido? Esqueceu que hoje é dia de Resenha, porra?

— O Bolota, o Maninho e o PP já tão lá no bar segurando a mesa! O bonde tá completo, só falta o VIP. Tu não vai furar com a gente, né?

Um close-up no rosto de JC mostrou as olheiras profundas, o peso do mundo.

— Ih, mano... esquece.

- Avisa a rapaziada que hoje não dá.

— O clima tá pesado.

- Tive uns B.O.s aí... Tu deve ter visto os gráficos.

— Eu quebrei, Valtinho.

Valtinho tenta manter o ânimo, achando que é exagero.

— Ah, para de show! "Quebrei"... Tu sempre recupera no day trade, pô! Larga de drama e vem!

JC se sentou no sofá, a voz embargada por uma mistura tóxica de tristeza e raiva impotente.

— É sério, brother.

- Zerei a conta.

- Tô no negativo.

— O Velho... meu pai me fodeu de novo. Derrubou tudo. Tô na lona, sem cabeça pra festa.

Silêncio na linha. A cara de Valtinho muda.

O palhaço sai, entra o amigo leal.

Ele pensa rápido.. percebe que o amigo está na beira do abismo.

 

A voz dele voltou mais calma, sem os apelidos, mas ainda cheia daquela esperança contagiante que só os verdadeiros amigos têm.

— ...Putz. O Boss final atacou de novo?

— Beleza, beleza. Relaxa.

- Eu seguro as pontas com os moleques hoje.

- A gente remarca a comemoração oficial pro dia 20 do mês que vem. Sagrado.

— Até lá... segura a onda, Cara-Concha.

- Não faz nenhuma merda. Eu tô ligado num esquema que pode te ajudar a sair desse buraco.

 

 

Pagina 3

Game Over? Try Again.

A voz de Valtinho ecoava no telefone, mas o cérebro de JC ainda estava processando o luto financeiro.

De repente, o celular em sua mão vibrou com uma notificação aguda.

JC franze a testa com a notificação do celular

[NOTIFICAÇÃO: PLIM!]

— Que isso? Mensagem de erro?

VALTINHO (OFF)

— Tá no PC, Cara-Concha? Hneh-hneh-hneh!

— Loga lá. Acessa aquela conta offshore que tu me deu a chave-mestra pra guardar. A "Reserva de Mana".

Movido por uma curiosidade que superava o desânimo, JC se levantou e caminhou até o computador.

Digitou as senhas, passou pela biometria e acessou o sistema bancário criptografado.

A página carregou.

E o mundo parou.

[SPLASH PAGE: O SALDO SALVADOR]

A tela brilhava com números verdes.

A tela do PC domina a página.

SALDO TOTAL:US$ 8.450.000,00 (BTC/ETH/USDT)

O reflexo de JC no vidro mostra olhos arregalados.

 

 

O choque da salvação.

Era um saldo absurdamente alto.

Uma sequência de zeros que parecia um erro de digitação, mas era a mais pura realidade matemática.

O rosto chocado de JC se refletia no monitor, os olhos arregalados vendo a esperança renascer em pixels.

— Eita preula...

— Quantos zeros tem isso aqui? Eu tô vendo dobrado?

A risada de Valtinho explodiu no fone.

— Lembra daquela mining pool que a gente montou ano passado? Aquela shitcoin que a gente farmou na zoeira?

— Valorizou 5.000%, papai! Essa é a tua fatia do loot. Tá rico de novo, seu puto! Aquela cripto que a gente farmou? Essa é a sua parte, seu puto!

JC se afastou do computador, passando a mão nos cabelos, tonto.

— Mano... eu tinha até esquecido dessa parada.

A voz de Valtinho assumiu um tom professoral, de quem acabou de curar o time inteiro numa raid.

— Você pediu pra eu guardar essa grana pra você nessa conta, como um backup de emergência.

Pra caso o "chefão final" resolvesse te dar um game over.

 

(Flashback: Cyber Café "Player One", meses atrás.

Luzes neon, barulho de teclado mecânico. JC tenso ao lado de Valtinho.)

JC:

— É sério, mano. Eu preciso de um firewall financeiro.

- Se o Velho descobrir onde eu tô alocado, ele zera minha conta. Eu preciso de um Plano B invisível.

Valtinho:

 — Relaxa o esfíncter. Eu sou teu Support Class.

— Vou jogar isso num servidor fantasma na Estônia.

- Criptografia militar.

- Nem a NSA, nem o Batman, nem o teu pai acham isso aqui.

JC sorri, aliviado: "Valeu, Perna de Três. Tu é foda."

Valtinho: "Eu sei. Agora me paga um milkshake."

(Fim do Flashback)

De volta ao presente, o sorriso de JC era largo, genuíno.

A energia vital, drenada pelo pai, voltava com força total. Ele não estava derrotado.

Ele estava apenas recarregando.

— Tu é foda, sacudo.

- Tu realmente me salvou do Game Over.

— Esquece o luto.

- Eu tô de volta no jogo! Dia 20 eu tô lá na resenha, firme e forte!

 

 

Valtinho comemora do outro lado.

VALTINHO (OFF)

— AEEE CARA-CONCHA!

— E já prepara o PIX, porque o Bolota descolou uma side-quest nova.

- Uma small cap que vai explodir.

-A gente vai jogar os "beringotes" lá!

JC

— Já é, Sacudo. Tô dentro.

— O Velho achou que me quebrou... mas eu tenho respawn infinito.

JC desligou a chamada, os olhos fixos na tela milionária.

Ele tinha o poder.

Ele tinha os amigos.

E agora, tinha o dinheiro.

 

Pagina 4

Um tempo depois... Laboratório Principal.

Mauro Magnus entrou no laboratório ajustando suas caríssimas abotoaduras de ouro, ele caminha como um CEO operando um de seus bens mais valiosos, como se fosse dono do ar que Dr. Marcos respira.

O ambiente estava frio e estéril.

— Relatório, Doutor.

— Como está se saindo a nossa "estagiária ativista"? Já surtou ou ainda é útil?

Dr. Marcos aponta para o monitor principal com orgulho quase paternal (pelo experimento, não por ela).

Um raro sorriso de entusiasmo genuíno surgido em seu rosto cansado.

— Ela é... prodigiosa, Senhor Magnus.

— Em 72 horas, ela resolveu o gargalo de purificação que travava o projeto há meses. A contaminação por cortisol durante a extração.

(MONITOR)

Esquerda: Gráfico vermelho mostrando picos de estresse e a foto do monstro instável.

Direita: Gráfico verde, estável, mostrando uma preguiça calma, dormindo em um galho sintético aquecido.

MARCOS (OFF)

— Ela redesenhou o protocolo ambiental.

- Nutrição específica, temperatura, ciclos de sono... O estresse sistêmico zerou.

— Resultado: Pureza enzimática de 99,8%.

- E o melhor: supressão total do "efeito berserker". As cobaias não viram monstros antes da hora.

Magnus franze a testa, impressionado, mas cínico.

— Eficiente.

— Mas ela sabe o que está fazendo? Ou acha que está salvando as baleias?

Marcos sorri, abrindo as imagens das câmeras de segurança.

— Veja o senhor mesmo.

- A queda moral em tempo real.

Quatro telas mostrando Herika mergulhada no trabalho:

 [SPLASH PAGE - O MONITOR DE VIGILÂNCIA]

A tela gigante se fragmentou em quatro visões da queda moral de Herika, absorta em seu trabalho:

Cientista: Olhos brilhando diante do microscópio.Herika (Pensamento): Isso aqui revoluciona a terapia genética... O potencial de cura é infinito.Cuidadora: Alimentando uma preguiça com carinho técnico.Herika (Pensamento): Elas precisam de dignidade. Se o ambiente simula a natureza, a resposta imunológica melhora.Admiradora: Analisando a fórmula do EXUS com respeito relutante.Herika (Pensamento): É grotesco... mas é brilhante. A arquitetura viral desse vetor é perfeita.Arquiteta: Desenhando novos modelos de RNA no tablet, obcecada.Herika (Pensamento): A sequência base está errada. Se eu trocar a adenina aqui... estabiliza.

De volta à sala de controle, Magnus observava a tudo com um atenção e surpresa em seguida ele ri satisfeito de forma diabólica.

O "BBB" científico é seu programa favorito.

— Hahaha... Doutor, você me surpreende.

— Corrompeu a alma dela usando a própria inteligência contra ela. Brilhante.

Magnus se vira para sair, chamando Fernando.

Ele está pronto para o palco público.. Fernando, sua segurança leal, o esperado na porta.

— Mantenha ela ocupada e produtiva.

- Estamos finalmente nos trilhos.

- O nosso "BBB" aqui está uma delícia, mais para deleite das massas preciso ir.

— Agora, se me dão licença... tenho que ir sorrir para as câmeras de verdade e fingir que tenho empatia.

— Vamos, Fernando. O show não pode parar.

 

 

PÁGINA 5

Semanas se passaram.

O CAMINHO DO PODER

A página é um mosaico de hipocrisia perfeita.

PAINEL 1 (CAPA DE SITE ESPORTIVO)

LOCAL: Comunidade Sol Nascente, SP.

Magnus, de camisa social branca dobrada (o look "homem do povo"), corta a fita de uma quadra poliesportiva.

Bibi, radiante, segura a tesoura com ele.

Crianças negras e pardas o cercam, maravilhadas.

MANCHETE: MAGNUS INAUGURA COMPLEXO ESPORTIVO E PROMETE FUTURO PARA A JUVENTUDE.

NARRADOR

O Primeiro Mandamento do Poder: Seja amado pelos desamparados...

 

PAINEL 2 (PROGRAMA DE TV)

LOCAL: Estúdios TV RS, Porto Alegre.

Magnus sentado no sofá do talk show, postura de estadista. GC na tela: SAÚDE PARA TODOS: REMÉDIOS A PREÇO DE CUSTO.

Bibi ao lado, emocionada, falando com sotaque carregado.

MAURO MAGNUS

— Nossa missão não é o lucro. É a vida. Saúde de ponta na mesa de cada brasileiro.

BIBI

— Bah, é uma emoção tri legal voltar pros meus pagos e trazer esse presente, né? O Mauro tem um coração de ouro.

PAINEL 3 (FOTO DE COLUNA SOCIAL)

LOCAL: Centro Cultural da Diversidade, RJ.

Magnus segura um cheque cenográfico gigante de doação.

Ele está cercado por ativistas e bandeiras do arco-íris.

Bibi aplaude de pé, o acessório perfeito.

Ele compra a pauta identitária com o troco do café.

NARRADOR

...Compre o silêncio das causas com sorrisos e cheques gigantes...

 

PAINEL 4 (COMERCIAL DE TV - FRAME)

LOCAL: Farmácia Popular Magnus (Cenário).

Uma senhora idosa chora, segurando uma caixa de remédio genérico Magnus.

Magnus aparece ao fundo, desfocado, como um anjo da guarda corporativo.

LOCUTOR (OFF)

— Farmácias Magnus. Porque cuidar de você não tem preço.

NARRADOR

...Plante a semente da gratidão no solo fértil da necessidade...

 

 

PAINEL 5 (REPORTAGEM DE RUA)

LOCAL: Sertão Nordestino. Sol escaldante.

Um repórter suado fala para a câmera.

Atrás dele, um caminhão-pipa com a logo da MAGNUS distribui água.

A multidão segura cartazes toscos: MAGNUS PRESIDENTE.

REPÓRTER

— Aqui no sertão, o sentimento é unânime.

- O povo não pede água... pede Magnus!

MAURO MAGNUS

— A voz do povo é a voz de Deus! E eu estou aqui para ouvir!

BIBI

(Abraçando uma senhora sertaneja)

— Ai, que amor! A gente não vai esquecer de vocês!

NARRADOR

...E, acima de tudo, venda a ilusão perfeita de que você se importa.

 

 

PÁGINA 6

A FÚRIA DA REDAÇÃO

KRA-SMASH!

Um sapato vermelho de salto alto voou pela sala, estilhaçando a tela plana da TV.

A TV de 60 polegadas explode. O sorriso perfeito de Mauro Magnus vira um mosaico de vidro quebrado e pixels mortos.

— QUE NOJO DESSE HOMEM! AHHHHHH!

— "Santo dos Pobres"... Hipócrita de merda!

Vanessa está no centro da sala, ofegante, o peito subindo e descendo, a fúria pura estampada no rosto, descalça de um pé, tremendo de ódio.

— Semanas! Semanas rodando em círculos!

— O desgraçado posa de Messias na TV e o tal do "João Carlos" continua sendo um fantasma! Eu tô ficando louca!

A porta se abriu e Ivan entrou, com aquela expressão de falsa preocupação.

— Wow... Take it easy, Nessa.

— O seguro cobre o equipamento, mas sua sanidade não tem backup. Tudo bem?

VANESSA

— Ótimo, Ivan. Tô ótima.

- Só treinando arremesso olímpico.

— Me deixa.

 

Ivan se aproxima, ignorando o sinal vermelho. Ele toca o ombro dela, invadindo o espaço pessoal com um ar paternalista que beirava a condescendência.

— Que isso, quanta agressividade...

— Achei que a noite passada lá em casa tinha te deixado mais... relaxada.

- A hidro não funcionou?

VANESSA(Tirando a mão dele)

— Ivan, corta o papo furado. Não tô no clima pra DR de escritório.

— Eu preciso de um furo, não de uma massagem.

Ele não recuou. Pelo contrário, tocou o rosto dela, numa tentativa de sedução barata ou posse.

— Calma, ruiva... A gente vai acha-lo.

A porta se escancarou de supetão, quebrando a tensão (e criando outra).

Gabi entra, atropelando o momento constrangedor..

— AMIGA! BABADO FORTE!

— ...Eita. Interrompi o love de novo ou a Vanessa tá treinando MMA com a televisão?

Vanessa, que já estava por um fio, veia da testa salta. explodiu.

— CARALHO! EU VOU BOTAR UMA TRANCA NESSA PORTA!

— NINGUÉM NESSA REDAÇÃO SABE BATER?! QUE INFERNO!

GABI

— Calma, Estressadinha! O babado compensa!

— Lembra do mistério do "M"? Eu tava pensando... e se o "M" for de Magnus? Imagina o plot twist? O pé-rapado ser filho do dono do mundo? Hahaha!

 

 

Vanessa fuzila Gabi com o olhar. A piada caiu como chumbo.

— Gabi, se você veio aqui pra gastar meu tempo com fanfic de novela mexicana, pode sair.

— Eu tô a um passo de um colapso nervoso e você vem me falar que o surfista falido é um Magnus? Me poupe.

Gabi vê o estado da amiga e muda o tom. A piada morre. Ela fica séria, profissional.

GABI

— Tá, parei. Desculpa.

— Então... uma amiga minha me passou uma nota quentíssima!

Narrador

"Antes que uma "nota quentíssima" pudesse ser revelada, o bolso de Ivan vibrou e tocou". 

IVAN

— Fala logo, Gabi. O que você descobriu?

Gabi abre a boca para soltar a bomba, mas o celular de Ivan vibra, cortando o clímax.

SFX

TRIMMM! TRIMMM!

Ele olhou para a tela, e sua expressão mudou instantaneamente.

— Hold on.

— Sim e ele (pausa), Como (pausa) Sério!!!!

— Sério? Você confirma essa informação?

— Listen to me... não mexe em nada. Segura a cena.

- Tank you.

 

 

 

PÁGINA 7

UMA DOURADA METAMÓRFICA

Loft do JC.

Mais tarde, naquela noite.

NARRADOR

Para alguns, a ruína é um gráfico vermelho descendo.

Uma morte lenta, silenciosa, calculada em juros compostos.

Loft do JC. Luz apagada, apenas o brilho azul da tela de descanso do PC.

JC encara o reflexo escuro.

O dinheiro na Estônia é um alívio, mas o ódio pelo pai ainda é um buraco negro no peito.

A humilhação imposta por Magnus ecoava em sua mente como um disco arranhado.

(Pensamento)

"Ele zera meu jogo toda vez que eu chego no Boss... De novo. De novo. De novo.

Como é que ele tem esse poder todo? Como eu deixo ele ter esse poder?"

De repente, ele franziu a testa.

JC leva a mão ao peito.

A expressão muda de raiva para desconforto físico.

Ele puxa a gola da camiseta.

— Que calor é esse...?

— O ar condicionado pifou? Tá quente pra cacete aqui.

 

 

 

A sensação escalou rápido demais.

O desconforto virou uma brasa viva engolindo seus órgãos.

Ele se curvou, dobrando-se sobre o próprio estômago, o suor brotando instantaneamente na testa.

— Ahhh...

— Uma ardência... tá queimando... parece que eu engoli brasa...

Um close-up grotesco e fascinante em seu antebraço.

O antebraço de JC. A pele estica, quase transparente.

As veias não estão azuis. Estão DOURADAS..

Mas não era sangue vermelho que corria ali. Elas pulsavam com uma luz dourada, viscosa e incandescente.

Parecia lava correndo por baixo da derme, cozinhando-o de dentro para fora.

NARRADOR

Não é sangue. É lava.

Cozinhando a carne de dentro para fora.

A dor explodiu, insuportável. JC foi arremessado do contra o sofá porque teve um choque de alta tensão.

BATIDO!

Ele caiu no chão frio, o corpo se contorcendo em espasmos incontroláveis, as costas arqueadas num arco antinatural.

— CARALHO! O QUE É ISSO?!

— O QUE TÁ ACONTECENDO COMIGO?! ALGUÉM ME AJUDA!

 

Página 8

Naquele exato momento de agonia, enquanto o fogo dourado queimava suas veias, a barreira de amnésia em sua mente se rompeu.

Um vislumbre violento do passado recente invadiu seus olhos.

NARRADOR

"A dor é a chave.

O fogo dourado queima a amnésia.

E a memória volta como um soco."

A memória o levou de volta à mansão.

JC saiu da biblioteca batendo as portas atrás de si com uma força que estremeceu o hall. 

BATA! 

Ele passou pela casa como um furacão, o rosto transformado numa máscara de ódio e humilhação.

Lá fora, ele arrancou em seu HB20 Amarelo.

Não houve despedidas, apenas o som agudo dos pneus cantando no asfalto caro da entrada, deixando marcas pretas de borracha como uma assinatura de sua rebelião. 

SKREEEEEEECH!

Dentro do carro, a bolha de silêncio foi quebrada por seus gritos.

JC segurava o volante com tanta força que os nós de seus dedos permanecessem brancos.

— Quem ele pensa que é?!

— Zera minha conta, humilha minha mãe e acha que vai me comprar com o "império" dele?! Vai pro inferno!

 

 

Seus dentes estavam cerrados, a mandíbula fazendo de tensão.

— Mauro Magnus...

— Manipulador! Escroque! Psicopata de terno! Eu devia ter quebrado a cara dele!

Ele dirigiu sem rumo pela noite do Rio, as luzes da cidade viram riscos de neon no vidro.

Ponto de vista (POV) através do para-brisa. No meio do borrão, um letreiro neon brilha como um farol no escuro: PUB ALQUIMIA URBANA.

A visão do bar trouxe outra imagem à tona, uma memória com bordas suaves e dolorosas:

Sobreposto ao letreiro, o rosto de Herika sorrindo para ele naquela mesma mesa, tempos atrás.

Um sorriso triste, cheio de segredos.

JC (PENSAMENTO)

Herika...

A única pessoa que entendia essa merda toda...

A fúria no rosto de JC se dissipou um pouco, dando lugar a uma expressão profunda de cansaço e solidão absoluta.

Ele girou o volante bruscamente,entrando no estacionamento.

A raiva dá lugar à exaustão.

Ele precisa de álcool.

— Dane-se.

— Eu preciso beber até esquecer meu sobrenome. Ou... quem sabe encontrar ela de novo.

 

 

PÁGINA 9

O DESTINO É UM PUNHO FECHADO

Pub Alquimia Urbana a lembrança continua.

NARRADOR.

"O destino, às vezes, não se move com a precisão de um bisturi... mas com a brutalidade cega de um punho fechado."

A noite avançava dentro do Pub Alquimia Urbana, Pub Alquimia Urbana.

JC no balcão, cercado por três copos vazios.

Ele encara o quarto copo como se fosse um inimigo.

Debruçado sobre o balcão, visivelmente embriagado, ele falava sozinho.

As palavras saíramam arrastadas, pesadas de álcool e raiva, atraindo olhares incomodados de outros clientes.

(Arrastado)

— Filho da puta... acha que compra tudo... compra gente... compra alma...

— Mas a minha não tá à venda, Mauro. Não tá... hic.

A porta do bar abre com um estrondo.

Entra a "Tropa de Choque": seis brutamontes com camisas de torcida organizada, suados e eufóricos.

O Líder (Careca) entra gritando.

— AQUI BRABO, PORRA!

— UMA VEZ CAMPEÃO, SEMPRE CAMPEÃO! CHORA MULAMBADA!

 

No balcão, JC examina com a cabeça.

Seus olhos carregavam um desprezo bêbado pela felicidade alheia.

(PENSAMENTO)

"Bando de animal... gritando por causa de 22 milionários correndo atrás de uma bola. Tanta felicidade por nada."

Os torcedores dominaram uma mesa grande no fundo.

Um deles, o mais jovem, foi até o balcão pedir uma rodada, enquanto esperava, ele encosta no balcão ao lado de JC para pedir as cervejas.

Ele ouve o resmungo..

— ...Inescrupuloso... manipulador de merda... playboy de terno...

O torcedor voltou para a mesa com as cervejas, inclinando-se para falar com o Líder, cochichando a sentença de JC.

— Coé, Chefia... saca só o playboy ali no balcão.

— Tá choramingando sozinho, xingando o vento. Mó otário depressivo. Tá estragando a vibe da vitória.

Close no rosto do Careca.

O copo de cerveja para no meio do caminho.

Ele olha para a nuca de JC como um leão olha para uma gazela manca. O sorriso é perverso.

CARECA

— É mesmo...?

— Acho que o playboy tá precisando de um pouco de... animação.

 

 

De volta à realidade, no loft de JC, a luta continua.

A câmera se moveu, olhando de cima, como uma visão divina (ou infernal).

JC perdeu a consciência, o corpo finalmente relaxando no chão frio após uma agonia.

E então, o milagre sombrio começou.

Uma luz dourada começou a emanar de seu corpo, pulsando suavemente, ritmada como um segundo coração.

A luz não era elétrica, era orgânica, quente, poderosa e terrível.

Ela banhava a sala escura, prometendo que o homem que acordasse ali não seria mais o mesmo.

NARRADOR

"Mas para outros... a ruína é biológica.

Uma morte rápida.

Para dar à luz algo... divino."

Página 10

De volta a redação conturbada da Rede News

Ivan que estava de costas ao o telefone acaba de finalizar uma chama que parece ser de vital importância para a continuidade da trama.

O chefe antes polido e controlado agora aparente um certo ar de apreensão com anovas informações que recebeu.

(Sussurrando para si mesmo)

— Puta merda...

— O business acabou de ficar pessoal.

Com uma leve expressão de preocupação, olhos vazios e uma mão sobe uma boca entre aberta ele convoca suas fies escudeira para uma missão importantíssima.

Como um Comandante firme e determinado ele convoca Vanessa e Gabi:

— Vanessa. Gabi. Follow me. Agora!

— Sem briefing, sem perguntas. É breaking news, é quente e a gente tem que sair ASAP.

O trio corre em direção ao estacionamento, Ivan prontamente saca as chaves do carro eles partem rumo ao próximo estágio

— Entrem no carro!

— Se a gente perder o timing disso, já era.

 

Avenida Brasil.

Um calor infernal, o asfalto queimando.

O Onix vermelho de Ivan costura o trânsito caótico, cortando caminhões e motos.

Dentro do carro. Vanessa segura no "puta-merda" (alça de teto), tensa com a direção agressiva.

Ela olha para Ivan, cobrando explicações.

— Ivan, qual é a desse rally?! Tu tá costurando a Brasil igual maluco!

— Dá pra abrir o jogo ou a gente tá fugindo de alguém? Qual é a pauta?

Gabi sentada no banco de trás está tensa mais curiosa sobre a atitude intempestiva de seu líder.

— Caralho, mané... O que deu no chefinho?

— O homem surtou, Vanessa! Meteu o louco legal. Nunca vi ele nessa pilha errada não. O B.O. deve ser gigante.

Alguns minutos depois o bólido de fogo chega a seu destino, O carro freia bruscamente na lateral da 14ª DP.

O prédio é velho, pintura descascada.

Na porta lateral, nas sombras, está o Investigador Freitas fumando um cigarro barato, postura curvada de quem carrega 20 anos de distintivo e cansaço.

O trio desce. Freitas joga o cigarro no chão e pisa, olhando para os lados, paranóico.

FREITAS

(Voz rouca, sotaque arrastado, cansado)

— Doutor Ivan... Demorou, bicho.

— Entra, ligeiro. O Delegado tá rondando o plantão igual urubu na carniça.

- Não consigo segurar essa bronca por muito tempo não.

Pagina 11

Ao entrar no prédio por um acesso que não o convencional nossos amigos são surpreendidos pór um ambiente pesado:

O interior da delegacia é um caos.

Corredor estreito, luz fluorescente piscando. Policiais civis (alguns gordos, outros bombados) arrastam um sujeito algemado.

Advogados de porta de cadeia gesticulam. O ar é denso, quase visível mistura-se entre colônias baratas, café velho e suor.

Narrador

"O cheiro era uma mistura azeda de café requentado, desodorante barato e desespero humano. Bem-vindos ao purgatório burocrático."

O trio avança apreensivo em direção a um corredor de aspecto estranho, Gabi no entanto estava num momento dubio nervosa mais ao mesmo tempo excitada.

(Sussurrando)

— Caraca... Que vibe dark, gente.

— Olha o tamanho daquele PM ali... Misericórdia.

— Eu tô me tremendo toda, mas não sei se é medo ou se minha calcinha molhou. Que lugar bizarro...

Vanessa por outro lado em seus pensamentos e com um olhar matador fuzila a amiga de forma devastadora

(PENSAMENTO)

"Jesus amado, qual é o problema dessa garota? A gente tá no meio de uma DP imunda e ela pensando em sacanagem?"

 

Gabi percebe que está divagando e lembra da bomba que tem para soltar. Ela agarra o braço de Vanessa com força, parando-a no meio do corredor.

— Peraí, Nessa. É sério agora.

— Eu preciso te passar a fita daquele bagulho de mais cedo. É urgente, mulher!

Vanessa estava totalmente focada em tentar descobrir os motivos que Ivan a levara até aquele local, distraída pela confusão do ambiente ela mal consegui olhar para sua amiga.

— Gabi, pelo amor de Deus, agora não!

— Foca na missão! O Ivan tá pilhado, isso aqui é furo grande. Deixa a fofoca pra depois!

Gabi acaba perdendo a paciência e de forma intempestiva tira Vanessa do seus Transe com um puxão em seu o braço.

Vanessa sai do foco e Regea a situação

— Ai, garota! Tá maluca?

— Quer arrancar meu braço fora?!

Gabi ignora a reclamação.

O rosto dela muda.

Sai a ninfomaníaca, entra a repórter de instinto da Baixada ela segura Vanessa pelos ombros, voz firme, olho no olho..

— Acorda, cabeção! Presta atenção no que eu tô falando!

— A minha amiga me ligou apavorada. O marido dela, foi jogar o lixo numa viela e quase enfartou.

— Ele jurou pela mãe morta que achou um corpo no meio da sujeira.

 

 

Vanessa revira os olhos, ainda cética, achando que é pauta sensacionalista barata.

— Ah, fala sério, Gabi. "Corpo no lixo"? Isso é pauta pro programa do Max, sangue e baixaria.

- A gente cobre política e eco...

Gabia agora com um olhar mais firme e com um brilho de repórter investigativa muda seu tom para um voz mais tensa .

— Cala a boca e escuta, Vanessa!

— O cara tava vivo.

— E o mais bizarro: ele tava debaixo de uma montanha de lixo, mas o corpo... a pele dele...

— ...tava intacta.

- Sem um arranhão sequer. Como se tivessem colocado ele lá com cuidado.

Pagina 12

Essa informação caiu como uma bomba nuclear na mente de nossa intrépida jornalista.

Vanessa travou por completo naquele grande corredor sinistro ela franziu a testa, processando aquilo como se fosse uma palavra em outro idioma.

— No lixo? Gabi, isso é sério?

— Tu não tá de sacanagem comigo de novo, né? Tipo mais cedo com o lance do 'M'"?

Vanessa ainda desconfiada mostrou um certo ar de "serio isso" ela arqueou uma sobrancelha, cruzou os braços e ainda sem Levar a sério questionou Gabi mais uma vez.

— Um corpo? Vivo? No lixo?

— Gabriele, acorda. Isso é presunto, é homicídio, é BO de polícia.

— Essa pauta é do Max, aquele urubu sensacionalista. Eu não cubro "mundo cão".

Gabi fica indignada.

Ela aperta os braços da Vanessa com força, sacudindo a amiga.

Os olhos dela estão arregalados, injetados de adrenalina.

— Ô maluca, se liga! Presta atenção no que eu tô falando!

— O cara jurou de pé junto, Vanessa! O maluco tava vivo!

— A roupa do cara tava destroçada, empapada de sangue seco, parecia que ele tinha passado num moedor de carne...

 

 

 

Close extremo no rosto da Gabi, falando com intensidade.

— ...mas a pele dele?

— O corpo tava liso. Sem um arranhão. Intacto.

— Como é que alguém sangra daquele jeito e não tem nenhum corte, Ruiva?

Foi nesse momento que a ficha de Vanessa caiu.

O IMPACTO. O rosto de Vanessa congela. As pupilas dilatam. Um arrepio sobe pela espinha.

O som da delegacia some, substituído por um zunido agudo (Tinnitus). A cor foge do rosto dela.

Narrador

"A realidade desacelerou. O cheiro de café velho sumiu. Só restou o frio na espinha."

Esta informação bateu como um raio.

Vanessa parecia estar entrando em transe e uma viagem psicodélica de volta ao uma passado rescente.

Seu rosto em choque. Um flashback em tons de vermelho e cinza deram vinda a suas memorias:

Flashback 1: Adriele dando aquele salto impossível na parede do laboratório. Flashback 2: Fernando de pé no capo de uma Van em alta velocidade, imóvel como uma rocha. Flashback 3: O brilho dourado do Soro Gênesis na mão do Dr. Marcos.

De volta ao corredor.

 

Vanessa está pálida, suando frio ela sussurra para si mesma, conectando os pontos com sua lógica jornalística afiada.

Uma conexão se formava em sua mente, como peças de um quebra-cabeça macabro finalmente se encaixando.

(Sussurro trêmulo)

— Roupa rasgada... muito sangue... mas sem ferimentos?

— Regeneração...? Força sobre-humana?

— Não... não pode ser coincidência. Será que uma daquelas... coisas... escapou do laboratório?

Vanessa encara Gabi.

O olhar dela é hipnótico, frio, aterrorizante.

Ela segura os ombros da amiga.

— Gabi... olha pra mim.

— Você tem certeza absoluta disso? "Sem um arranhão"? Nem um corte sequer?

Gabi recua um passo, assustada com a mudança brusca da amiga.

GABI

— É... foi o papo reto que ele me deu. Por que essa cara, doida?

— Ruiva, tu tá branca... Tá passando mal? Tem certeza que tu tá de boa?

 

 

 

 

 

 

Pagina 13

Corredor da Delegacia.

Ivan para na porta de uma sala reservada e percebe que está falando sozinho. Ele olha para trás, irritado.

— My God... Cadê aquelas duas?

— O deadline tá correndo, porra!

Ivan volta alguns passos e encontra Vanessa e Gabi no meio da "DR". Ele estala os dedos na frente delas, autoritário.

— Ladies! Acabou a fofoca.

— Acelerem o passo.

- O Freitas não tem o tempo de vocês e o meu budget de paciência estourou. Move it!

De volta ao jogo Gabi e Vanessa apertam o passo e seguem Ivan até uma porta pesada com a placa: "SALA DE RECONHECIMENTO".

Vanessa e Gabi trocam olhares confusos.

Vanessa apreensiva:

— Ivan, pra que isso?

— O que a gente tá fazendo numa sala de reconhecimento?

Gabi Nervosa:

— Sei lá, Ruiva...

— Mas o chefinho tá com uma cara de quem vai demitir alguém ou matar alguém.

Interior da Sala de Observação.

Escura, claustrofóbica, cheiro de cigarro velho impregnado nas paredes.

A única luz vem do vidro espelhado azulado.

O Inspetor Freitas está encostado na parede, braços cruzados.

Mal sabiam eles que se transformariam em espectadores de um teatro macabro.

Freitas avisa a os espectadores de forma sutil como um policial cansado e fanfarão.

(Voz cansada, baixa)

— Silêncio total a partir daqui doutores.

— O vidro é espelhado, mas o isolamento acústico é uma porcaria. Se gritarem, o bicho pega.

Narrador

" Uma delegacia de Polícia Civil. O lugar onde a verdade é uma criatura que só gosta de aparecer sob a luz fria e impiedosa de uma lâmpada de interrogatório."

Do outro lado do vidro, a cena era crua.

Inspetor Freitas fez um sinal breve com a cabeça e seu parceiro o Oficial Dantas(jovem, forte, impaciente) abriu a porta de uma sala e vem trazendo uma pessoa para "SALA DE INTERROGATORIOS".

Na sala de interrogatório (paredes descascadas, luz branca forte, clima tenso, ar pesado).

— Bora, malandro.

— Senta aí, cidadão.

- Sem gracinha que hoje eu tô sem paciência.

Contra-plongée (câmera de baixo para cima) revelando o Careca.

Ele é asqueroso: camisa de torcida organizada imunda, barba falhada, dentes amarelos.

Mas a postura é relaxada, quase arrogante.

Mais apesar do local e da situação ele demonstrava um certo ar de tranquilidade.

Na SALA DE TESTEMUNHAS as reações e os sentimentos se misturam e colidam.

Vanessa franziu a testa, seu reflexo se misturando à imagem do homem do outro lado.

(Sussurro)

— Quem é a peça?

— Ivan, qual é a desse cara?

Ivan nem piscou, os olhos fixos na presa.

(Olhar fixo, frio)

— Not exactly "quem", Vanessa. Mas o que ele viu.

— Digamos que ele é a "testemunha chave" da nossa caçada pelo Anjo.

Gabi por outro lado não conseguia conter sua libido e mordia seus lábios em uma mistura de tesão e tensão.

(pensamento)

"Eita, que ogro..."

"Olha o tamanho desse animal. A mamãe aqui ia domar esse touro brabo em dois tempos. Credo, que delícia."

Na sala iluminada, Freitas entra em cena.

Ele senta devagar, coloca uma folha de papel na mesa e a desliza até o Careca.

O Careca olha para a folha com superioridade.

Então, ele um sorrio de canto de boca bem sádico e maléfico, contorceu suas feições numa máscara de prazer cruel. e o questionou?.

— E aí, Chefia?

— O que o nobre doutor deseja saber dessa vez?

 

Dantas bate a mão na mesa com violência (BAAAM!), assustando quase todo mundo, menos o Careca.

— Qual foi, Careca?!

— Sem gracinha, porra! Tu não tá na arquibancada não!

Freitas Mais experiente e vivido:(Calmo, segurando o braço do parceiro)

— Calma, Dantas.

- Segura a onda.

- Não entra no jogo dele.

Dantas agora mais contido insiste.

(Trincando os dentes)

— Então fala, desgraçado.

— Repete a informação que tu deu na triagem. Agora.

NARRADOR

"O medo é a moeda corrente naquele lugar. Mas ele? Ele estava quebrado. Apesar do aço frio mordendo os pulsos, sua postura era um insulto. Relaxado. Entediado. Como se não estivesse prestes a confessar um crime, mas apenas esperando o garçom trazer a conta num restaurante barato."

Pagina 14

Na sala de testemunhas a tensão era palpável, um fio esticado prestes a arrebentar O silêncio é pesado.

Ivan está de pé, braços cruzados, musculatura tensa.

Vanessa tem as mãos unidas, os nós dos dedos brancos, suando frio.

Gabi morde o lábio inferior, perna cruzada balançando freneticamente.

O silêncio é pesado.

Do outro lado do vidro espelhado, o Careca e o Investigador continuam seu jogo de gato e rato, sob a luz estéril da sala de interrogatório.

Freitas agora vai direto ao ponto.

— Foco aqui. O cara da foto.

— Abre o bico.

- Me fala desse sujeito.

(Era a foto de JC que Ivan tinha compartilhado com Freitas.)

Dantas está logo atrás, com os punhos cerrados complementa.

— Anda logo, doidão. Desembucha.

— A paciência acabou.

 

O Careca não se intimida ele levanta a cabeça devagar e olha diretamente para o espelho escuro.

Ele não vê quem está lá, mas sente a plateia.

Em seu rosto se formou uma risada curta, seca, cheia de arrogância e desdém, como se estivesse lembrando de uma piada interna.

— Hehe...

— Tô ligado. Conheço a peça, sim.

— É o playboyzinho, né? Mó figura.

Sala de Observação.

Vanessa e Gabi se abraçam impulsivamente, um alívio súbito. O sentimento de vitória toma conta.

(Sussurro empolgado)

— Meu Deus! É ele! A gente achou o JC!

Ivan permanece imóvel, cético.

Vanessa olhou para Ivan e o questionou

— Por que essa cara de enterro, Chefinho? A gente conseguiu!

Ivan compenetrado apontou para sala de interrogatório de forma direta, como quem diz ainda não acabou.

(Sem olhar para elas, apontando para o vidro)

— Hold on, Vanessa.

— Ainda não acabou. Escutem o resto.

E Ivan estava certo a alegria durou um segundo.

Narrador

Às vezes, a verdade não é uma linha reta. É um quebra-cabeça doentio montado no escuro.

 

Do outro lado do vidro, com uma arrogância truculenta, o careca recostou-se na cadeira, as algemas tilintando.

Estufou o peito, como se estivesse prestes a contar uma história de glória num bar, e não confessando um crime numa delegacia.

— Aquele cuzão depressivo?

- Aquele otário?

— Noix quebrou ele na saída do bar, doutor.

- Um dia desses aí.

O impacto da frase.

O abraço de Vanessa se desfaz.

Ela recua, pálida.

Gabi trava.

Ivan fecha os olhos.

Narrador

"A frase ecoou nas paredes mofadas, atingindo o trio como um soco no estômago. A esperança não apenas morreu. Ela foi assassinada."

A câmera focou em seus rostos, iluminada apenas pelo reflexo do vidro. Choque. Horror.

E a mais terrível das compreensões.

O Investigador Freitas, alheio ao drama na sala ao lado e irritado com o ritmo lento do depoimento, bateu na mesa.

— Continua! Quero os detalhes sórdidos.

— O que vocês fizeram com o garoto na saída do bar?

 

O Careca agora dono da situação deu de ombros e com a tranquilidade de quem se achava invencível o questionou.

— O que o Doutor quer saber? A versão light ou a hardcore?

Oficial Dantas irritado

— Tu tá testando minha fé, maluco?!

— Conta tudo! Exatamente como tu cantou na triagem!

Sala de Observação o trio está paralisado Ivan tira os óculos e aperta a ponta do nariz, resignado com o que vai ouvir.

(Sussurro)

— Oh, my God... Lá vem a bomba.

O careca sem esboças uma única emoção:

— O senhor quer mesmo saber toda a verdade? Tem estômago pra isso?

O trio agora ficou ainda mais perplexos depois desta uma pergunta do interrogatório.

Vanessa e Gabi se olharam de forma tensa.

O predador assassino olhou bem o vidro e com um ar de satisfação soltou essa perola.

— A gente só queria... ensinar uma lição de humildade pro playboy.

— Sabe como é, né, Doutor? Educação vem de berço... ou de porrada.

— Mas relaxa, meus queridos... Eu vou contar tudo nos mínimos detalhes.

— Hahahahahahaha!

PÁGINA 15

A Vinança da Teia

Corte abrupto para o silêncio estéril da Contenção 244, no coração do Laboratório Magnus.

Silêncio estéril. Herika está deitada num sofá improvisado, encarando o teto branco seu corpo está imóvel, mas os olhos varrem o vazio, calculando.

(PENSAMENTO)

"A base da sequência do Marcos é brilhante... monstruosa, mas brilhante.

Mas ele é arrogante. Ele não vê as variáveis que eu vejo.

Com as modificações que eu inseri no código genético... a equação mudou."

CLOSE EXTREMO nos olhos de Herika.

A pupila dilata.

O momento da epifania.

Não é uma ideia boa, é uma ideia perigosa

(PENSAMENTO)

"Eles querem cura. Querem obediência. Querem soldados.

Mas e se...

E se a natureza parasse de obedecer? E se ela resolvesse se defender sozinha?"

Herika se senta no sofá, segurando a cabeça. A iluminação da sala cria sombras que se materializam ao lado dela. É uma alucinação projetada pelo estresse e pela genialidade.

 

À esquerda: HERIKA ATIVISTA (Rosto em pânico, roupas civis, expressão de dor).

À direita: HERIKA BIÓLOGA (Jaleco impecável, postura ereta, olhar frio e fascinado).

FANTASMA ATIVISTA

— Você tá maluca, garota?! Para agora!

— Isso é eugenia! É brincar de Deus num nível que a gente lutou a vida toda contra! Isso é uma aberração!

FANTASMA BIÓLOGA

— Não seja medíocre, querida. Isso é evolução.

— Olha a beleza do que você criou. É a seleção natural acelerada.

- É a resposta perfeita para um mundo doente.

Herika fecha os olhos, o conflito interno é violento. As vozes se misturam.

FANTASMA ATIVISTA

— Você vai condenar todo mundo! O sofrimento vai ser inimaginável!

FANTASMA BIÓLOGA

— O sofrimento é parte da adaptação.

— Você quer salvar os animais? Então dê a eles os dentes para morderem de volta.

O rosto de Herika real se torna uma máscara de gelo.

Ela abre os olhos.

Os fantasmas desapareceram.

A dúvida morreu.

Só resta a determinação fria.

 

 

Narrador

"O debate acabou. A moralidade perdeu para a necessidade."

Herika caminha até o terminal do computador.

Ela não caminha como uma prisioneira, mas como a dona do lugar.

Ela se senta e digita com velocidade e precisão.

A luz azul da tela banha o rosto dela.

Um sorriso mínimo, quase imperceptível, surge.

Na tela, o cursor pisca sobre a pasta que ela acabou de renomear.

TELA DO COMPUTADOR

> ACESSANDO DIRETÓRIO RAIZ...

> ARQUIVO MESTRE CARREGADO:

> [PROJETO EXUS]

HERIKA (Sussurro)

— Se eles querem monstros... eu vou dar a eles deuses.

Continua,.... 

 

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