O Centro de Treinamento da Master X, aninhado sob sete camadas de basalto rúnico, era um labirinto de solidão forçada. Não havia luz natural, apenas a fluorescência fria dos cristais de mana embutidos nas paredes. O ar ali cheirava à poeira fina do quartzo vaporizado – resultado de incontáveis magias puras que haviam sido desferidas e absorvidas.
O Time Master X — Leo, Luna e Bob — estava de volta à sede em São Arcan, três dias após a humilhação de Campanus. A vitória de ter reestabelecido a água e eliminado a ameaça goblin era um sabor amargo. O sabor da sobrevivência, patrocinada pela intervenção de seu Mestre, Ainar Stellarion, pairava sobre eles como uma névoa ácida.
Ainar estava parado no centro da câmara, o sobretudo azul-petróleo seco e imaculado, em contraste gritante com os uniformes rasgados e recém-remendados do trio. Seu olhar era uma investigação científica fria; ele não via alunos, mas sim espécimes de alta complexidade que haviam falhado em um teste de campo básico.
— Vocês voltaram. Isso é a única coisa que me agrada — começou Ainar, a voz melódica, mas cortante. — Vocês têm o que eu chamo de "Talento de Sobrevivência Desnecessário". Gastam toda a reserva de mana e todo o capital tático para se salvar de uma ameaça que um recruta de Rank B deveria neutralizar com vinte por cento do esforço.
Leo, sentindo o pulsar quente de seu poder sob a túnica de viagem, deu um passo à frente. A pressão da mentira havia atingido o limite.
— Mestre Ainar — disse Leo, a voz firme, mas baixa. — Eu preciso que me ouça em privado.
Luna olhou para ele, os olhos lilases arregalados em advertência. Bob apenas apertou as manoplas de couro, sentindo a tensão.
Ainar Stellarion inclinou a cabeça, um sorriso lento e frio surgindo em seus lábios. — Um segredo? A Master X não tolera segredos. Ela os extrai à força.
Ele levantou a mão. Sem um movimento de conjuração visível, uma barreira de mana pura, transparente e inquebrável, envolveu os quatro. O ruído do restante da Guilda desapareceu, deixando apenas o som da respiração do trio.
— Fale, Veyndril. Sua vida acadêmica acabou. Seja real.
Leo inspirou profundamente e começou a falar. Ele revelou a verdadeira natureza do seu poder: não era apenas uma Invocação, mas um sistema completo, um código que ele só conseguia acessar sob pressão extrema. Ele explicou o familiar caótico, a intuição aguçada que lhe dava vislumbres do futuro tático e a influência que ele exercia sobre seus companheiros.
Ainar ouviu em silêncio absoluto. Seu semblante era ilegível. Quando Leo terminou, o Mestre deu um passo para trás, como se estivesse diante de um enigma que finalmente havia sido resolvido.
— Magia codificada em mitos. Que audácia poética — Ainar riu, um som seco, sem alegria. — Você não é um mago, Veyndril. Você é uma biblioteca incendiada. Sua mente é um campo de batalha entre a ordem e o caos.
Ainar olhou para Luna e Bob. — E o seu segredo, Veyndril, não está apenas em você. Está na conexão que você impõe a eles. Isso torna o trio não apenas forte, mas perigoso para a estabilidade da Master X.
— Então por que aceitou ser nosso Mestre, se somos um perigo? — perguntou Luna, a voz desafiadora.
Ainar sorriu, um sorriso de puro intelecto. — Porque vocês não são um perigo. Vocês são uma variável. E a variável é o que avança o conhecimento. Eu aceito o seu segredo. Mas agora, Veyndril, você não tem desculpas. Sua fraqueza em Campanus não foi tática; foi existencial.
Ainar desfez a barreira, o som da Guilda inundando-os novamente. A lição de Campanus estava prestes a começar.
Ainar não gritou; ele usou a indiferença como arma.
— Luna Selvestra. Você é a razão. Mas em Campanus, você permitiu que a fúria a fizesse gastar reservas preciosas, culminando em sua inconsciência. Sua magia é a arte da economia e da anulação. Sua Névoa das Sombras é poderosa, mas você não usou a velocidade que esperava. Você lutou como uma aluna de academia.
Ainar olhou para Bob. — Bob Caelun. Sua força é vasta, mas sua versatilidade é lenta. Três magias elementares. Três segundos para conjurar uma, três para coordenar a outra, três para o ataque final. Você estava brincando de ser três magos, quando o Time Master X precisa de um único vendaval destrutivo. Seu tempo de reação à anomalia foi de três segundos a mais. Três segundos a mais e Luna estaria morta.
O Mestre ergueu as duas mãos. Desta vez, a mana pura não os envolveu. Ela se manifestou como seis pilares de energia pura, posicionados ao redor do trio. Não eram paredes; eram eixos de pressão. Ainar ativou os eixos.
O ar entre os pilares ficou denso, pesado. O oxigênio começou a rarear. O trio sentiu a cabeça girar, os músculos clamando por ar.
— Essa é a Cela de Cristal — Ainar explicou, falando com a calma de quem dá uma sentença. — É a mesma mana pura que usei para conter os Orcs, mas agora usada para esgotá-los. Luna, sua magia anula matéria. Anule o espaço entre os pilares, onde a pressão do ar está se acumulando.
Luna tossiu, lutando contra a asfixia. Ela tentou invocar um Vazio. A mana pura de Ainar era a ordem absoluta. A magia de Luna era rechaçada pela densidade da ordem.
— Fracasso. Você tentou destruir a Cela, mas não anular o ar que ela está esmagando. Sua magia se concentra na forma, não na essência do seu alvo.
Ainar se virou para Bob, que estava apoiado no joelho, ofegante.
— Bob. A lição é integração. Sua afinidade deve ser um único golpe. Use o Vento para desorganizar a pressão, a Água para condensar a mana em vapor e o Raio para romper o campo de pressão. Não três magias, Bob. Uma. Um Rompante.
Bob, desesperado e sem ar, cerrou os dentes. Ele canalizou a energia. O Raio e a Água brigaram. O resultado foi um choque violento que apenas o fez tossir sangue e cair.
— Nove segundos. — Ainar murmurou, desligando os pilares. — Em uma situação real, vocês estariam mortos por asfixia, nove segundos antes de eu me cansar de olhar.
Ainar afastou-se de Luna e Bob, que se recuperavam no chão. Seu foco mudou para Leo.
— Agora, Veyndril, a sua luta — Ainar disse, o tom ficando pessoal. — Você é o mestre da ordem, da tática. É por isso que você é lento. Sua previsão te dá a resposta, mas sua tática te força a analisar o caminho até ela. Essa análise é a sua hesitação.
O Mestre gesticulou, e a sala se transformou. O chão de quartzo se tornou uma simulação de Campanus, projetado em mana. Orcs etéreos, cópias perfeitas da ameaça real, surgiram.
— Você tem que matar o tático que te habita. Você tem que deixar o caos governar.
Ainar conjurou uma esfera de mana pura, idêntica àquela que ele usou para prender os Orcs. A esfera era perfeitamente lisa, sem falhas.
— Veyndril, ative a previsão. Eu vou te dar um ataque de mana no ombro esquerdo.
Leo ativou seu dom. O mundo ficou lento. Ele viu a trajetória do ataque de Ainar.
— Agora. Use o controle elemental para se esquivar — comandou Ainar.
Leo se esquivou. A energia passou assobiando.
— Perfeito. Três segundos de hesitação entre a previsão e a ação. Na vida real, o Orc teria te decapitado antes que o mago se movesse.
— Você tem o segredo do caos em suas mãos, Veyndril. O Louco é a ação pura, sem análise. Eu não quero seu plano. Eu quero seu instinto. Você vai quebrar a minha esfera de mana pura.
Leo atacou a esfera com sua magia. O fogo, o vento, o raio — tudo era absorvido pela ordem de Ainar.
— O tático está atacando. Está usando a tática que você aprendeu. Falha!
Ainar ativou a previsão de Leo novamente. O mundo desacelerou. A esfera de mana, na visão de Leo, tinha um minúsculo ponto de falha, uma rachadura de um milissegundo em que a mana do Mestre se tornava mais densa.
— AGORA, VEYNDRIL! — Ainar rugiu. — LOUCO! LOUCO! LOUCO!
Em desespero, Leo não pensou em mana, mas no instinto. Ele usou a energia caótica, pura e instintiva. Não foi um feitiço; foi um impulso. O caos atravessou a falha, não quebrando o cristal, mas anulando a ordem que o sustentava.
A esfera de mana pura implodiu em um flash de luz branca.
Ainar não estava irritado. Ele estava radiante.
— Desespero Estruturado. Esse é o seu novo nome, Veyndril — Ainar declarou, o tom vibrando de satisfação sádica. — Você só usará o caos quando estiver esgotado, sem energia, com a vida de seus amigos em jogo, e com apenas um segundo para agir. O tático é seu professor; o caos é seu carrasco.
Ainar olhou para o trio, agora mais exausto psicologicamente do que fisicamente.
— Missão concluída? Não. Missão reiniciada. Vocês dois, Luna e Bob. — Ainar apontou. — Vão para os portais laterais. Eu criei uma simulação de combate de campo no nível mais alto na área de Campanus. Centenas de Orcs e um Senhor da Guerra Etéreo com a mesma resistência que eu demonstrei.
— Vocês vão lutar até o limite da exaustão. Vocês vão conjurar a integração elemental e a magia sombria com precisão de raio laser. Se falharem, a dor será real. Vocês vão aprender a economizar a vida, não a mana.
O Mestre se virou para Leo. — E você, Veyndril. Você vai observar. Você vai usar sua previsão para antecipar cada movimento deles. E se eles caírem, você vai usar sua influência para reorganizar a tática deles em tempo real.
Ainar se encostou na parede, a figura de um predador esperando a caça.
— O Labirinto acabou. O sangue é real. E agora, o seu segredo é meu. Vão.
O trio, sob o peso do segredo e da humilhação, marchou em silêncio para os portais laterais. O novo treinamento de Ainar não era para torná-los melhores, mas para quebrar a ordem que os impedia de serem o que ele via: uma variável descontrolada.
