Lyria não pensou.
Apenas agiu.
Enfiou o manto por cima da camisola, escondendo o ombro marcado, e abriu a janela com cuidado. O frio da noite mordeu sua pele, mas ela ignorou. Melhor o frio do que ser encontrada.
Os sinos continuavam tocando ao longe. Cada badalada parecia empurrar o tempo contra ela.
— Anda… — murmurou para si mesma.
Desceu com dificuldade, os pés tocando o chão úmido do quintal. A casa de madeira rangeu atrás dela, como se reclamasse da fuga. Por um instante, Lyria teve medo de que alguém tivesse visto. Mas a rua ainda estava vazia.
Ela correu.
O vilarejo parecia diferente à noite. Sombras mais longas. Silêncios mais pesados. As casas fechadas, as janelas apagadas, como se todos soubessem que era melhor não ver nada.
Quando virou a esquina da antiga ferraria, ouviu passos. Não eram os dela.
Lyria parou de repente, o coração quase pulando pra fora do peito. Pensou em voltar, mas já era tarde demais.
— Não faça barulho — disse uma voz baixa, atrás dela.
Ela girou assustada, quase gritando, mas uma mão cobriu sua boca antes. Forte. Quente.
— Calma — a voz repetiu. — Não vou te machucar.
Os olhos dele eram escuros. Não apenas pela falta de luz, mas profundos, atentos demais. Ele parecia… alerta. Como alguém acostumado a fugir.
Lyria mordeu a mão dele por reflexo.
— Ei! — ele reclamou em voz baixa, soltando-a. — Eu disse calma.
— Quem é você? — ela sussurrou, recuando um passo. — Se veio por causa da marca, pode ir embora.
O forasteiro franziu a testa.
— Então você tem uma — disse. Não parecia surpreso. — Eu sabia.
Isso fez o medo dela crescer ainda mais.
— Se souber disso, sabe o que acontece com pessoas como eu — Lyria respondeu, tentando parecer mais firme do que se sentia.
Ele suspirou, passando a mão pelos cabelos escuros, como se estivesse cansado.
— Sim. Eu sei. Por isso mesmo você não devia estar aqui.
Antes que ela pudesse responder, vozes ecoaram no fim da rua.
— Verifiquem essa área!
Lyria sentiu o corpo travar.
O forasteiro não hesitou. Segurou o pulso dela e a puxou para trás da ferraria, onde sombras se acumulavam. O coração dela batia tão alto que parecia denunciar os dois.
— Fique quieta — ele murmurou. — Confia em mim. Só um pouco.
Ela queria dizer que não confiava. Que não confiava em ninguém. Mas não disse nada.
Os passos passaram. Lanternas iluminaram a rua por segundos longos demais. Depois, foram embora.
O silêncio voltou, pesado.
— Quem é você? — Lyria perguntou de novo, agora com a voz mais baixa.
— Kael — ele respondeu. — E você está em perigo maior do que imagina.
— Todo mundo diz isso — ela retrucou.
Kael olhou para o ombro dela, mesmo escondido pelo manto, como se conseguisse ver através do tecido.
— A lua vermelha não aparece por acaso — disse. — E marcas como a sua… não despertam sem motivo.
Lyria sentiu a marca pulsar de leve, como se respondesse às palavras dele.
— Você sabe demais — ela disse.
— E você sabe de menos — Kael respondeu. — Se ficar aqui, eles vão te encontrar. Não hoje. Mas logo.
Ela engoliu em seco.
— E se eu for com você? — perguntou, quase sem perceber.
Kael demorou a responder. Os olhos escuros encontraram os dela.
— Então não tem mais volta.
A lua, ainda vermelha, observava os dois do alto.
E Lyria soube que aquela escolha mudaria tudo.
