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Chapter 13 - Capítulo 12: Deuses. Bem, eles são Deuses

Estou deitado na gaiola depois de tanta briga. Estamos na forma de roedores e estamos cansados. Meu corpo está cheio de arranhões e mordidas. Que menina louca, como gosta tanto de briga.

Vejo ela se levantando e me olhando com sorriso.

"Vamos de novo, ver quem é mais forte" ela fala com sorriso de roedor, o que sinceramente me faz rir com minha voz fina. Ela me olha estranho.

"Não, estou cansado. Já estamos o dia inteiro aqui e não comi nada além dessas frutas" falo vendo o potinho de fruta e água na minha frente. Estão nos tratando como roedores mesmo, filhos da puta.

Ela fica em pé, parecendo que o que eu falo entra num ouvido e sai no outro. Ela só me encara querendo briga.

"Que tal uma história? Me fale sobre sua vida e eu falo sobre a minha, como cheguei aqui" eu falo me deitando e olhando para ela, que fica vermelha, o que é mais engraçado. Ela deita também.

"NÃO!" grita ela com sua voz aguda, mas depois me olha. "Você primeiro e talvez eu pense em falar sobre mim."

"Está tudo bem, vou começar pelo começo" falo me deitando.

Vou inventar uma história legal. Quem sabe nós viramos amigos. Ela é forte e pode me ajudar no futuro, e mesmo que não ajude prefiro ela como amiga do que inimiga. Ela só acena com a cabeça olhando meus olhos em silêncio. Agora que vejo, nossa briga boba deixou arranhões nela também.

"Desde que me lembro nasci no orfanato, claro antes de saber que era filho de uma Deusa tão forte e bondosa. Mas sempre sofri bullying e era bem fraco no começo. Não comia como os outros porque só sobrava um pão seco e água, já que eu era o último. Só no colégio que eu tinha esse privilégio, mas meu TDAH e dislexia complicavam minha vida" falo devagar e pauso, olhando ela que parece se interessar, então continuo.

"Assim cheguei aos meus 10 anos e decidi fugir. Faltavam alguns dias pro meu aniversário, mas quem se importaria? É só mais um garoto órfão, ele já volta. Eu acho que todos iam pensar assim. Então andei por dias, pegando comida na rua ou roubando algumas coisas pra sobreviver. Claro pensei em voltar, mas quando lembrei dos olhares e das palavras e da dor pensei comigo mesmo: não consigo.

Fiz 11 anos e foi quando tudo pareceu mudar. Achei um jardim com uma pequena estufa, sentia as plantas lá e decidi dormir. A terra me abraçou porque mesmo com vento eu estava quentinho, e o sono veio rápido" eu paro e vou até onde tem pote de água, bebo, olho pra ela e continuo.

"Quando levantei me sentei perto de uma árvore velha que estava morrendo, e eu sabia disso mesmo sem saber explicar. Então fechei meus olhos e foi como um cadeado se abrindo. Senti um poder saindo de mim indo pro chão. O cansaço veio rápido, levantei com as pernas tremendo e a roupa que já não era das melhores estava toda suada. Mas quando olhei o jardim foi como um choque: tudo vivo, cheio de cores, a velha árvore saudável, gramas verdes e flores.

Eu sorri, fiquei feliz mesmo, sabe? Um sentimento que não sabia como me expressar, e me perguntei faz quanto tempo que não fico feliz.

Saí pra andar pela cidade. Claro os humanos sempre me rejeitaram e falavam palavras que doem, mas entendo agora. Mas devo agradecer a um policial quando tiver chance, graças a ele ainda posso respirar já que encontrei o que achei que fosse meu fim" eu paro e bebo mais água, espero um pouco, vejo ela e dou uma risada pelo jeito que ela está encarando. Dou uma tossida fina e continuo.

"Andando pela rua achei uma mulher, acho que foi a mais linda que já vi. A voz dela era linda, loira, sua pele perfeita branca como pérola e sua boca com sorriso bem grande. Olhei com meus olhos brilhando. Ela me chamou pra ir em sua casa para eu comer algo bom, sabe comida de verdade pela primeira vez. Uma boa ideia eu pensei.

Mas senti um arrepio e ela pareceu perceber também. Seu sorriso ficou maior e seus dentes afiados como navalha. Sua baba escorria pelo canto da boca e sua voz quando falou gelou meu corpo" eu paro de falar e Clarisse me olha.

"O que ela falou? É monstro se matou ela e aí o que aconteceu" fala ela quase animada.

"Seu cheiro é maravilhoso. Ela fala. Sua voz distorcida, seus olhos ficaram vermelho e dourado. O cheiro de enxofre saiu dela. Antes bela agora uma criatura. Seus cabelos ficaram flamejantes, olhos vermelhos, uma perna que parecia bronze e a outra de burro. E bem fiz o que todos que estivessem ali poderia fazer" termino com sorriso. Ela olha para mim.

"Uma empousa! Você a matou. Agora entendo como é tão forte" ela fala animada. Eu balanço a cabeça. Ela me olha em dúvida.

"Não, eu corri. Afinal não sou idiota" termino rindo, vendo seu rosto ficar vermelho de raiva.

"Covarde! Você tem que lutar até a morte, não fugir" fala ela se rolando e socando o ar, o que me faz rir mais ainda. Vejo ela parando e me olhando.

"Espera você está vivo, o que aconteceu depois? Termina a história" fala ela se sentando. Eu só balanço a cabeça negando.

"Não não, deixa pra outro dia. Minha voz já está ficando rouca e estou cansado de frutas. Claro nada contra as frutas, mas faz anos que não sei o que é carne" falo. Ela me olha como idiota.

"Você fala como se fosse velho e estranho. Sua história é ridícula, não quero ouvir. Também não precisa contar" ela vira o rosto me ignorando. Eu só dou uma risada, mas paro ao ouvir uma voz.

"Senhor D, acho que eles estão prontos. Não vão brigar mais, o que acha" vejo Quíron me olhando com sorriso, mas seus olhos antes tensos agora estão tranquilos.

"Sim sim, está bom. Essa história ridícula pode acabar" escuto a voz do senhor D, mas não vejo ele.

A gaiola sobe no ar, meu corpo gira, vejo tudo girando e caio no chão. Deitado ao meu lado Clarisse que se levanta rápido, eu também me levanto. Vejo meu corpo e estou bem. Será que ele nos curou mesmo em forma de roedor? Tem como? Isso é foda.

"Vão tomar um banho já que estão fedendo e sem brigas. Espero vocês no jantar" ele acena a mão pra saída.

Clarisse me olha com sorriso debochado e sai. Eu suspiro e começo a sair também. Vejo campistas parados rindo pra nós dois. Clarisse ignora e só vai pro seu chalé.

Fico parado e olho para frente, vendo a Katie com a cara fechada. Caminho até ela, já sentindo o que viria, mas eu deixo.

Ela me dá um cascudo que faz minha cabeça ir pra baixo.

"Ai! Desculpa" falo rápido com sorriso.

Mesmo sem nos conhecer ela age como minha irmã mais velha e sinto uma conexão com ela, mas me sinto nervoso e com medo já que parece que as plantas querem me bater.

"Seu idiota irresponsável, a nossa mãe está furiosa. Venha vou arrumar outra roupa para você e tenha certeza que não tente brigar de novo" ela fala com a voz brava. Ela pega minha orelha, bem eu deixo mas dói, e me arrasta pro chalé.

Vendo as pessoas rindo mas olho pra trás, vejo Quíron como se estivesse aliviado me olhando. Eu dou um sorriso e ele acena com a cabeça.

Chegando no chalé vejo todos me olhando bravos, menos Lucas que está em silêncio olhando pra baixo. A Katie me solta, minha orelha dói.

"Desculpas. Acho que pelo que estou sentindo a nossa mãe deve estar brava. Sinto muito mesmo" falo com sorriso coçando a cabeça.

"Babaca" fala Miranda me olhando com raiva.

"Idiota" fala a Olivia com sorriso.

"Achei legal" fala Mel, olhando pra baixo e depois me olhando. Mas eu a encaro, ela desvia o olhar, deve ser vergonha.

"Queria pedir desculpas Caleb por não ajudar" fala Lucas, mas com a voz baixa.

Eu vou até ele passando pela árvore, mas só senti uma ardência na bunda. Eu caio pra frente ouvindo as risadas.

"Ai! Já pedi desculpas" falo olhando. Deve ter sido a Katie, mas eu nem senti. Ela olha meus olhos.

"Não fui eu, foi a nossa mãe. Ela está furiosa. Boa sorte" ela fala se sentando na cama.

Eu vou até Lucas e passo a mão em seu cabelo. Ele me olha com seus olhos em lágrimas.

"Sabe um velho me falou uma vez que a coragem não está em saber quando tirar uma vida, mas sim em saber quando poupar uma" falo com calma olhando ele que me olha estranho.

"Não entendi. Não queria matar, só tenho medo de brigar" ele fala me olhando estranho.

"É bem eu também não entendi quando o velho falou, mas achei genial essa frase. Medo é bom, todos nós temos medo, e quando superamos o medo a vitória é mais gratificante" falo me sentando na cama e olhando a árvore que parecia querer me bater mais.

"Tá vou parar de falar. Peço desculpas mãe. Bem vamos jantar" falo coçando a cabeça.

Miranda me olha de cima a baixo.

"Vai tomar um banho, está fedendo. Vamos esperar você na porta pra não deixar você passar vergonha ou deixar a nossa mãe ainda mais brava" ela fala.

Todos me olham. Lucas dá um sorriso. E eu bem, acho que mesmo sem entender isso é família. Sinto meu peito esquentar. Que mundo mágico é esse, legal mesmo sendo perigoso.​

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