Diante de mim estava uma visão que nenhuma palavra ensinada pelos antigos poderia explicar.
Ela não parecia um espírito faminto nem um presságio de desgaste. Era alta — mais alta do que qualquer mulher que eu já havia visto — e flutuava levemente acima do chão, como se o mundo físico fosse apenas uma sugestão para ela. Sua pele era branca como porcelana, marcada por delicados desenhos dourados que se espalhavam pelos braços e colo, entrelaçados com flores douradas que enfatizavam vivas. Vestia um longo vestido vermelho, adornado com flores amarelas, que exalavam um perfume doce e reconfortante, misturado ao cheiro da floresta após a chuva.
Seus longos cabelos negros caíram como uma cascata silenciosa, e seus olhos dourados refletiam algo antigo — não cruel, não frio, mas profundo. O rosto traz uma maquiagem de caveira ornamentada, bela e simbólica, não macabra. As velas flutuavam suavemente ao redor de seu vestido, suas chamas resultantes, como se protegidas por uma vontade maior. Sobre a cabeça, um grande chapéu ricamente decorado completava a figura impossível.
Meu corpo tremia. Não tenho medo. Mas de reconhecimento.
Então ouvi sua voz.
Suave. Serena. Próxima demais para ser ignorada, mas gentil demais para causar medo.
— Eu sou Catrina, a deusa dos mortos.
As palavras ecoaram dentro de mim, não como um trovão, mas como uma sugestão antiga que sempre esteve ali.
Deusa... dos mortos? Como isso era possível?
Como algo tão calmo, tão sereno, tão libertador poderia carregar um título que sempre nos ensinaram a temer? A presença dela não trazia desespero, mas acolhimento. Não havia frio, nem vazio. Apenas uma paz estranha, quase alegre, como o reencontro com alguém querido após longa ausência.
Se a morte fosse isso… por que temê-la?
Engoli em seco e, reunindo toda a coragem que ainda me restava, ajoelhei-me diante dela.
— Ó grande deusa dos mortos… por que aparecestes para mim? O que você deseja que eu faça?
Ela me observou por um instante que parecia eterno. Então estenda levemente a mão.
— Caminhe comigo.
Enquanto caminhava ao lado dela, algo dentro de mim se aquietava. Não houve julgamento em suas palavras, nem frieza em sua presença. Ela falou comigo com uma gentileza quase íntima, como alguém que me conhecia há muito tempo. Era pensar estranho que aquela figura, que se dizia deusa dos mortos, me tratava com mais cuidado do que muitos vivos.
Comecei a reconhecer o caminho. Meu coração apertou antes mesmo de eu entender por quê. As árvores ali eram mais espaçadas, o chão irregular, marcado pelo tempo. Eu sabia onde estávamos indo.
Era um antigo campo de batalha.
Ali, anos atrás, minha vila havia lutado contra outra. Muitos não voltaram.
O silêncio daquele lugar era pesado.
Havia ossos espalhados pelo chão, parcialmente cobertos pela terra e pelas folhas, esquecidos pelo tempo e pelos vivos. Parei sem perceber. Meus pés se recusavam a avançar.
Ela então estendeu a mão e apontou para o campo.
— Veja.
Sua voz não carregava tristeza, nem acusação. Apenas convite.
Senti uma pressão suave no ar, como se o mundo respirasse fundo. Era o último resquício de seu poder divino sendo usado. Uma energia quente e reconfortante percorreu o lugar.
Então, as almas se manifestaram.
Figuras translúcidas surgiram onde antes havia apenas ossos. Não eram monstros, nem sombras distorcidas. Eram pessoas. Guerreiros. Jovens. Velhos.
E entre eles… rostos que eu conhecia.
Um primo que nunca voltou da batalha. Um amigo de infância. Um homem que costumava rir alto nas festas da vila.
Meu peito se apertou, mas não havia dor. Apenas uma saudade profunda, misturada com alívio.
Eles não pareciam presos. Não sofriam.
Alguns sorriram para mim.
Outros apenas assentiram, em silêncio.
Então, pouco a pouco, como folhas levadas pelo vento, as almas se dispersaram, retornando ao fluxo que eu ainda não compreendia por completo.
Ela falou, então, com suavidade:
A morte não é castigo. É passagem. O esquecimento é o que dói, não o fim.
Naquele momento, compreendi.
A morte não era o horror que nos ensinaram a temer.
Ela era memória.
Ela era continuidade.
Ela era respeito.
Sua voz não carregava julgamento, apenas verdade.
— Os mortais temem a morte porque a veem como perda. Mas, para nós, ela é transformação. Nada se perde. Tudo segue.
— A morte deve ser lembrada, não escondida. Celebrada, não negada — contínua ela. — Porque lembrar dos mortos é afirmado que eles ainda são importantes.
Algo dentro de mim mudou naquele instante. A morte não era o fim de tudo. Era o início de nossa jornada. Uma grande aventura.
Ela voltou-se para mim.
— Qual é o seu nome?
— Itzcóatl — respondi, com voz firme pela primeira vez.
Ela assentiu lentamente.
— Eu escolhi você, Itzcóatl.
Enquanto conversamos, pude sentir que aquela escolha não era um fardo, mas um presente.
Ela então me explicou como os mortos deveriam ser lembrados. Disse que não eram precisos grandes templos ou rituais complexos. Bastava intenção e memória. Mandou-me colocar flores da terra, frutos colhidos com respeito, objetos simples que representam quem partiu. Ensine-me a montar um pequeno altar, não para aprisionar os mortos, mas para convidar suas lembranças. Disse que, diante dele, eu deveria falar com o coração aberto, lembrar dos nomes, das histórias, das risadas e das dores, mantendo-os vivos dentro de mim. Por fim, pediu que o altar estivesse queimado, deixando que a fumaça levasse aquelas memórias futuras
—Ensine aos seus. Lembre-os dos que partiram. Honre-os com alegria, com cores, com histórias. Que a morte não seja um tabu, mas um elo.
Meu coração se encheu de propósito. Inclinei-me novamente, não por medo, mas por respeito.
— Eu aceito, minha Deusa — disse, querendo algo novo nascer dentro de mim.
Catrina.
— então vá.
Ela começou a se tornar etérea, sua forma dissolvendo-se suavemente até tornar-se invisível. Ainda assim, sua presença permanece ali, próxima, vigilante.
Eu corri de volta para a aldeia, tomada por uma sensação que nunca havia conhecida: sentido.
Atrás de mim, na floresta silenciosa, o poder divino finalmente abandonou o corpo que ela sustentava por tanto tempo. Invisível aos mortais, Catrina caiu suavemente entre as raízes das árvores, adorada, enquanto o primeiro fio de sua influência começava a se espalhar pelo mundo.
