Cherreads

Chapter 15 - O Tabuleiro de janeiro

Janeiro de 1966 amanheceu com uma tonalidade diferente para Los Angeles. Para o público, era o início de um ano de promessas espaciais e revoluções musicais. Para a indústria do cinema, era o "Ano 1 de Leo Stone". O sucesso de Love Story nos cinemas durante o Natal não foi apenas uma vitória financeira; foi uma mudança de paradigma. As filas contornavam o Grauman's Chinese Theatre, e o termo "Blockbuster" — que Leo começara a plantar estrategicamente em conversas com jornalistas da Variety — começava a ganhar tração.

Leo Stone estava sentado em sua varanda em Trousdale Estates, observando o sol nascer sobre o Griffith Observatory. À sua frente, uma edição matutina do Los Angeles Times. A manchete da seção de entretenimento era direta: "O Gofer que virou Rei: Stone Productions domina 15% do mercado literário em seis meses".

Ele tomou um gole de café central-americano, apreciando o corpo encorpado da bebida. Leo sabia que o tempo era sua mercadoria mais valiosa. Ele tinha o Padrinho na folha de pagamento, o Tubarão prestes a entrar em produção e a Plymouth Fury esperando o roteiro final. Mas, naquela manhã, sua mente não estava em contratos ou bilheterias. Estava em uma mulher de olhos castanhos e alma de seda que ele conhecera no Roosevelt.

...

A Estratégia do Protetor

Naquela tarde, Leo dirigiu seu Mustang prata até o estúdio da Filmways. Ele sabia que Sharon Tate estava sob um contrato restritivo com Martin Ransohoff, um produtor da velha guarda que a via apenas como um "objeto decorativo" para filmes de terror e comédias de biquíni.

Ao entrar no set onde Sharon estava terminando algumas dublagens para Eye of the Devil, o silêncio caiu. Leo Stone não precisava mais se anunciar. Sua presença, envolta em um terno italiano cinza-chumbo e óculos escuros, exalava o tipo de autoridade que fazia diretores veteranos pararem para cumprimentá-lo.

Ele esperou Sharon sair da cabine de som. Ela usava uma blusa de gola alta preta e calças xadrez, parecendo mais uma estudante de artes de Paris do que uma starlet de Hollywood. Quando ela viu Leo, um sorriso genuíno, livre da artificialidade do set, iluminou seu rosto.

— Sr. Stone. Achei que os magnatas estivessem ocupados demais contando dinheiro em janeiro para visitar sets de dublagem.

Leo sorriu, aproximando-se. O cheiro de seu perfume floral era suave, uma ilha de frescor no meio do odor acre de poeira e fita magnética do estúdio.

— Eu nunca estou ocupado demais para o que é autêntico, Sharon. E, como prometi no Ano Novo, eu trouxe algo para você.

Ele entregou a ela um envelope pardo com o selo da Stone Productions. Não era o roteiro completo de Christine, mas um tratamento detalhado do personagem de Leigh Cabot — que ele havia reescrito para dar a ela uma força e uma profundidade que a obra original de Stephen King, escrita quase vinte anos depois, não possuía totalmente.

— Leigh não é apenas a namorada do herói, Sharon. Ela é a única que vê o mal na máquina. Ela é a bússola moral da história. É um papel que exige mais do que beleza; exige coragem.

Sharon pegou o envelope, seus dedos roçando levemente nos de Leo. Ele sentiu um impulso de segurar a mão dela, de dizer a ela para nunca ir a Londres, para nunca conhecer Roman Polanski, para nunca se mudar para a Cielo Drive. Mas ele conteve o impulso. Ele precisava ser o produtor, o mentor, o flerte seguro antes de ser o salvador.

— Por que você está fazendo isso por mim, Leo? — ela perguntou, seus olhos buscando a verdade por trás da fachada cínica dele.

— Porque Hollywood está prestes a ficar muito sombria, Sharon. E eu quero garantir que as luzes certas permaneçam acesas.

O flerte foi interrompido por Martin Ransohoff, que se aproximou com a arrogância de quem ainda achava que mandava na cidade.

— Stone! O que você quer com a minha atriz? Ela tem um contrato de sete anos comigo, espero que você saiba disso.

Leo Stone virou-se lentamente, ajustando a gravata. Ele olhou para Ransohoff com o desprezo de quem já vira o colapso de estúdios maiores que a Filmways.

— Contratos são papéis que os advogados usam para limpar o suor, Martin. Sharon Tate é um talento que você está desperdiçando em "bruxas" e "garotas de praia". Eu não quero apenas contratá-la; eu quero que ela seja a cara da nova Hollywood. — Leo deu um passo à frente, sua voz baixando para um tom perigoso. — E se eu decidir que quero comprar o contrato dela, Norman Brokaw fará o cheque antes do jantar. Pense nisso, Martin. A Universal está muito interessada em quem eu escolho para os meus próximos três filmes.

Ransohoff empalideceu. Ele sabia que bater de frente com o "protegido" de Lew Wasserman era suicídio corporativo.

...

O Jantar com o Padrinho

À noite, Leo trocou o Mustang por um Lincoln Continental preto, mais discreto para o encontro que teria. Ele foi até um pequeno restaurante italiano em North Broadway, longe do brilho de Beverly Hills.

Lá, em uma mesa de canto, Mario Puzo devorava um prato de espaguete com uma intensidade que sugeria que ele ainda não acreditava que suas dívidas haviam sumido.

— Stone — Puzo disse, limpando o molho da boca. — O tratamento que você me deu para a "família"... a ideia do Michael Corleone ser o relutante que se torna o mais cruel... é genial. Como diabos um garoto entende tanto sobre a transição do poder?

Leo sentou-se e pediu uma taça de Chianti.

— Eu vi muitas dinastias caírem, Mario. O segredo não está na violência; está no respeito e na necessidade de legitimidade. O público vai odiar o Michael no início, mas eles vão amar ele no final.

Puzo tamborilou os dedos gordos na mesa.

— Robert Evans me ligou ontem. Ele soube que você comprou a opção. Ele disse que eu era um idiota por assinar com uma produtora independente antes do livro estar pronto.

Leo sorriu friamente. Ele sabia que Evans seria nomeado vice-presidente de produção da Paramount em poucos meses e que sua primeira missão seria encontrar Propriedades Intelectuais (IPs) fortes.

— Diga ao Bob que ele pode ser o distribuidor, se ele se comportar. Mas o Padrinho pertence à Stone Productions. — Leo inclinou-se para a frente. — Como está o progresso?

— Escrevi sessenta páginas esta semana. Com o dinheiro que você me deu, minha esposa parou de chorar e meus filhos acham que eu virei um herói de guerra — Puzo riu. — Eu vou fazer deste o maior livro da década, Leo. Eu prometo.

...

O Silêncio sob a Lua

Leo voltou para casa tarde. A Plymouth Fury estava lá, sua grade cromada brilhando sob as luzes da garagem. Ele subiu para o quarto, mas antes de dormir, pegou o telefone e discou um número que Norman Brokaw lhe dera.

— Sharon? — ele disse, quando a voz suave atendeu no terceiro toque.

— Leo? Eu... eu acabei de ler Leigh Cabot. Ela é incrível. Ela não tem medo de enfrentar o Arnie.

— Eu sabia que você entenderia. — Leo fez uma pausa. — Você gostaria de jantar comigo na próxima terça-feira? No Chasen's? Nada de negócios, nada de Martin Ransohoff. Apenas dois jovens tentando entender por que o mundo mudou tanto em um mês.

Houve um silêncio do outro lado da linha. Leo sentiu o coração bater, uma sensação humana que ele pensou ter perdido

— Eu adoraria, Leo — Sharon respondeu, sua voz soando quase como um sussurro. — Boa noite, Arquiteto.

— Boa noite, Estrela.

Leo desligou. Ele olhou para o seu tabuleiro. As peças de quadrinhos da Charlton estavam sendo impressas, Puzo estava escrevendo a Bíblia da Máfia, e o Tubarão estava esperando a primavera. Mas, pela primeira vez em duas vidas, o movimento mais importante não envolvia bilhões de dólares. Envolvia um jantar na terça-feira e o juramento de que o verão de 1969 nunca chegaria para Sharon Tate.

More Chapters