Ryan sentiu o metal frio encostar na pele.
A armadura era um peso novo e estranho, como se tivesse absorvido cada grama da sua dor e da sua raiva. Não era apenas um traje. Era uma extensão do que ele havia se tornado.
O visor piscava com leituras constantes. Aprimoramentos musculares ativados. Reflexos ampliados. Capacidade de impacto elevada.
Nada disso, porém, era tão importante quanto a verdade silenciosa que ele sentia no próprio corpo.
Ele estava mais forte. Mais rápido. Mais letal.
E Hipton descobriria isso antes do amanhecer.
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Nas sombras de um prédio abandonado, Ryan observava a rua abaixo. Seus olhos, ou melhor, o visor da armadura, brilhavam em vermelho enquanto analisavam cada detalhe.
Ele não precisava procurar pelo crime. O crime vinha até ele.
No cruzamento, três homens cercavam uma garota à entrada de um beco. Ela recuava em pânico, até a parede barrar qualquer fuga. Um deles segurava uma faca.
O velho Ryan teria chamado reforços. Teria seguido o protocolo.
O novo Ryan apenas saltou.
O impacto do pouso fez o asfalto tremer. As luzes dos postes oscilaram. Os criminosos se viraram, pálidos.
— Mas que p…?!
Ryan se moveu antes que a frase terminasse.
Ele não pensou. Apenas agiu.
O primeiro soco foi como um terremoto. O homem voou como uma boneca de pano e se chocou contra a parede com força suficiente para rachar o concreto. Não se levantou.
Os outros dois tentaram atirar. Lentos demais.
A armadura analisou cada movimento. Cálculo automático. Ryan desviou antes mesmo que os gatilhos fossem pressionados.
Um chute. Um deles foi arremessado contra um carro estacionado, o vidro explodindo ao redor do corpo inerte.
O último tentou correr.
Ryan o agarrou pelo colarinho e o ergueu no ar. O brilho vermelho do visor se refletia no rosto do homem, que tremia descontroladamente.
— P-por favor…
O medo nos olhos dele era quase viciante.
Com um simples aperto de mão, Ryan poderia esmagar sua traqueia. Era isso que ele queria, não era? Que os criminosos finalmente sentissem medo de alguém.
Seus dedos se contraíram.
Ele o soltou. O homem caiu de joelhos e fugiu tropeçando pela rua.
A garota encarava Ryan, sem saber se agradecia ou se corria. No fim, apenas desapareceu na noite.
Ryan fechou os punhos.
A raiva ainda queimava dentro dele, implorando por mais.
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A patrulha continuou.
Ryan não parava. Cada rua percorrida, cada criminoso neutralizado, era mais um passo em sua nova guerra.
A cada golpe, a cada impacto, a raiva se tornava mais fácil de liberar. Mais confortável.
Então, veio a mensagem.
Um alerta surgiu no visor.
LOCALIZAÇÃO SUSPEITA: ANTIGA METALÚRGICA WESTWOOD
Ryan conhecia o lugar. Fora uma das propriedades do império de Alberto Grotto. Agora, os boatos diziam que Leprechaun operava dali.
Era a chance que ele esperava.
Ryan partiu imediatamente.
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A metalúrgica abandonada era uma ruína enferrujada no coração da cidade. Janelas quebradas, estruturas corroídas, escuridão escondida em cada canto.
Ryan entrou sem hesitar.
Os sensores detectaram movimento antes mesmo que seus olhos se ajustassem à penumbra. Ele não estava sozinho.
— Bom, bom… olha só quem veio me visitar.
Leprechaun surgiu das sombras, sorrindo como se recebesse um velho amigo.
O líder do crime vestia seu clássico terno verde escuro. Os olhos brilhavam com diversão. Atrás dele, capangas armados aguardavam, atentos como cães de guarda.
— Qual é a sensação de ficar frente a frente com o homem que matou Ethan McAllister?
Ryan cerrou os punhos. A raiva borbulhava.
— Eu vou acabar com você. Você vai sentir a mesma dor que ele sentiu quando o carro explodiu.
Leprechaun sorriu ao reconhecer a voz abafada pela armadura.
— Então é isso que te deram? Um brinquedo novo? Aposto que faz você se sentir invencível.
Ryan permaneceu em silêncio.
Leprechaun inclinou a cabeça.
— Mas me diz… você ainda é o Ryan Dawson aí dentro?
Um leve nervosismo atravessou Ryan ao perceber que sua identidade havia sido descoberta.
— Aposto que você já sentiu, não é? O quanto é fácil perder o controle. O quanto é tentador esmagar qualquer um que fique no seu caminho.
Ele estava provocando. Testando limites.
— Se você quer lutar, Leprechaun, não precisa de palavras.
— Ah, Dawson… você ainda não entendeu? Eu já ganhei essa luta.
Leprechaun estalou os dedos.
Os capangas abriram fogo.
Ryan reagiu antes que o primeiro disparo fosse feito.
O mundo virou um borrão de impacto e destruição.
Ele avançou como uma onda vermelha, esmagando armas, quebrando ossos. O chão tremia sob seus pés. Os gritos de dor se misturavam aos alertas do traje.
Quando tudo terminou, Ryan percebeu que Leprechaun havia fugido.
Seus punhos ainda tremiam. A armadura pulsava. A raiva continuava ali, viva, quente, exigindo mais.
E, pela primeira vez, uma dúvida se formou.
Ele estava controlando a armadura. Ou ela estava começando a controlá-lo?
