Gabriel Moreau, Amelia Harper e mais dois cientistas da Astra Corporation atravessaram a antiga metalúrgica. O prédio, antes tomado por máquinas e ruído, agora estava mergulhado em silêncio e sombras.
No centro do galpão, Ryan permanecia sentado no chão de concreto frio. Ao seu redor, os capangas jaziam desacordados, espalhados como peças descartadas após um jogo violento. Ele observava tudo em silêncio, como se ainda processasse o que tinha feito.
— Levante-se, Dawson — pediu Moreau, firme, mas sem elevar a voz. — A polícia deve estar chegando. Não é seguro sermos encontrados aqui.
Ryan levantou sem discutir. A armadura pesava, cada movimento exigia esforço.
Amelia se aproximou e o examinou com atenção. Havia preocupação em seu olhar.
— Vamos voltar ao laboratório — disse, mais suave. — Você precisa descansar. E sair dessa armadura o quanto antes.
Ryan apenas assentiu.
Eles o conduziram até um furgão discreto estacionado nos fundos. Em poucos segundos, desapareceram na escuridão, deixando para trás o som distante das sirenes que se aproximavam.
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Leprechaun estava sempre um passo à frente.
Enquanto Ryan lutava contra o cansaço, ele expandia sua influência até os corredores da Penitenciária de Hipton.
Grotto ainda estava vivo. Mas não por muito tempo.
Dentro da cela, o velho chefão do crime sabia que seu império estava desmoronando. Sabia quem estava por trás de tudo isso. Leprechaun.
Guardas subornados fingiram não perceber quando uma figura mascarada surgiu nas sombras do corredor.
— Leprechaun manda lembranças — murmurou o homem, aproximando a lâmina da garganta de Grotto.
O corte foi rápido. O sangue escorreu pelo chão da cela.
Na manhã seguinte, Hipton acordaria com um novo chefe do crime.
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Ryan já não lembrava a última vez que dormira de verdade.
Sempre que fechava os olhos, as imagens retornavam. Hipton em chamas. O carro de Ethan consumido pelo fogo. O sorriso venenoso de Leprechaun. A raiva crescia dentro dele como um tumor.
Passou as mãos pelo rosto e pegou o celular. Nenhuma ligação. Nenhuma mensagem.
Um dia, fora um dos pilares da polícia. Agora, era quase um fantasma.
O policial Ryan Dawson estava desaparecendo. Em seu lugar, algo novo tomava forma.
A porta do quarto se abriu de repente. Amelia entrou com passos firmes, o semblante tenso.
— Grotto está morto.
O silêncio tomou conta do quarto.
Leprechaun finalmente havia feito sua jogada.
Ryan apertou os dentes.
— Eu vou acabar com ele.
— E quando acabar? O que vai sobrar de você?
Ele não tinha resposta.
— O que você está se tornando, Ryan?
Mais silêncio.
— Não tente me dizer que Ethan gostaria de ver você assim.
Aquelas palavras o atingiram com mais força do que qualquer golpe.
Talvez ela estivesse certa.
Mas, naquele momento, isso não mudava nada.
O Fúria Vermelha já estava solto.
E só pararia quando Leprechaun estivesse preso. Ou morto.
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O rádio da polícia chiou, interrompendo os pensamentos de Ryan.
— Alerta de carregamento de armas dos homens de Leprechaun no Parque Salbury. Reforços solicitados.
Ryan se virou para os cientistas.
— Coloquem-me na armadura. Agora.
Era a oportunidade que aguardava havia dias. A chance de frustrar os planos de Leprechaun.
As placas metálicas se fecharam ao redor de seu corpo com estalos precisos. O som ecoava como um anúncio da batalha que estava por vir.
Mas aquilo era mais do que uma simples jogada de poder.
Era um convite.
E ele aceitava.
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O Parque Salbury estava coberto por uma névoa espessa. Um caminhão permanecia parado na entrada, faróis apagados, quase invisível na paisagem cinzenta.
Ryan aguardava em silêncio.
A porta do caminhão se abriu.
Leprechaun desceu. Sozinho.
— Eu sabia que você viria salvar seus amigos policiais — disse, exibindo um sorriso torto. — Uma pena que o alerta era falso. Criado por policiais que trabalham para mim.
Ryan não respondeu. A raiva pulsava sob a armadura.
— Engraçado. Você ainda usa essa armadura como se fosse um herói. Mas nós dois sabemos que isso é uma mentira.
Ryan deu um passo à frente. O chão rangeu sob o peso do metal.
— Onde estão seus capangas?
Leprechaun manteve a calma.
— Quero que você dê as boas-vindas ao meu amigo. O Mestre das Facas.
Da névoa surgiu um homem de sobretudo escuro. O tecido ondulava levemente com o vento frio. O rosto estava oculto por uma máscara preta lisa, sem traços, sem olhos visíveis. Apenas o vazio encobrindo sua identidade.
Ele não falou nada. Apenas se aproximou, com passos silenciosos, como se flutuasse sobre o solo.
— Acho que é o momento perfeito para vocês se conhecerem melhor — comentou Leprechaun.
O ataque do Mestre das Facas veio sem aviso.
Duas lâminas brilharam sob o sobretudo antes de serem lançadas contra o peito da armadura. Ryan girou no último instante. Uma faca ricocheteou na ombreira com um estalo seco. A outra passou raspando pelo capacete.
A batalha explodiu em movimento. Era habilidade contra força. Velocidade contra tecnologia. Silêncio contra fúria.
No auge do confronto, Ryan avançou com brutalidade e atingiu o adversário com um golpe devastador. O Mestre das Facas foi arremessado contra uma árvore, que se partiu, espalhando estilhaços e folhas pelo ar.
— Mate-o, Dawson — murmurou Leprechaun. — Você sabe que quer.
O coração de Ryan disparou.
Ele podia acabar com aquilo ali.
As palavras de Amelia ecoaram em sua mente.
Ele hesitou.
Foi o suficiente.
Leprechaun sorriu.
— Está vendo? Ainda existe algo em você preso a esse velho código de honra.
Ryan segurou a respiração, tentando controlar o ódio.
Foi então que o Mestre das Facas se moveu. A lâmina encontrou uma brecha na armadura e deslizou pelo flanco. A dor queimou em seu abdômen.
Ryan caiu de joelhos.
Leprechaun se agachou ao seu lado.
— Quando finalmente entender que não pode vencer este jogo, você vai se juntar a mim.
Ryan forçou o corpo a reagir, tentando se levantar.
Mas Leprechaun já havia desaparecido na névoa.
E, pela primeira vez, Ryan considerou a possibilidade de que talvez nunca conseguisse derrotá-lo.
