No instante em que o colar da lua é colocado de volta no pescoço e a coroa de cristais azuis repousa sobre sua cabeça, o brilho prateado e gélido retorna com força total. A aura negra e o tom vermelho de ódio nos olhos se esvaem, contidos e selados instantaneamente pela magia purificadora dos artefatos.
Stephen respira fundo, ainda impressionado com a demonstração de poder cru que acabou de presenciar. A sala do santuário volta ao seu equilíbrio habitual de serenidade e luz prateada, embora o ar ainda guarde o peso da revelação.
— É isso, Stephen. Esse é o meu passado... — diz Yasmim, ajustando a coroa com passos firmes. — Sua mãe é assim, sem controle. Sem esses artefatos para guiar e refrear a magia, a força que corre no nosso sangue consome tudo ao redor e nos transforma naquilo que mais tememos.
Stephen olha para as próprias mãos, compreendendo finalmente a constante luta interna de sua família e o verdadeiro motivo de precisar da luz lunar para não se perder na própria escuridão.
— Então a coroa e o colar não servem só para atacar... — murmura Stephen, a voz mais calma e compenetrada. — Eles servem para proteger a própria mente.
— Exatamente — confirma Yasmim. — E é esse mesmo controle que vou ensinar você a construir, para que nunca precise depender de artefatos ou cair nas armadilhas da Morgana e do Maycon.
Uma risada leve escapa do peito de Yasmim ao lembrar do passado, quebrando por um instante o clima denso do santuário.
— Sua mãe controla as trevas hoje... ela tem um colar de obsidiana e a coroa das trevas — conta Yasmim, os olhos resgatando memórias muito antigas. — Mas antes? Ela era igualzinha a você: inocente, vivia correndo atrás de um lobo e andava para cima e para baixo com uma coroa horrorosa de flores! Eu morria de alergia àquilo, a Christyane era simplesmente impossível... haha. Eu adorava provocá-la chamando de "Rainha das Flores".
A expressão de Yasmim volta a ficar um pouco mais séria, com o olhar perdido na luz prateada que flutua pelo local.
— Só que, assim que ela conheceu o Rei Maycon e aprendeu as artes antigas de falar com as sombras e com os lobos... ela pirou. O poder subiu à cabeça, os pesadelos dominaram a mente dela e a garota das flores sumiu para dar lugar à rainha de obsidiana.
Stephen escuta tudo em silêncio, tentando imaginar a mãe — aquela de quem todos falam com pavor — correndo pelos campos com uma coroa de flores e brincando com lobos.
— Uma coroa de flores... — murmura Stephen, incrédulo. — É difícil imaginar ela assim antes de virar a rainha de obsidiana.
— O veneno do Maycon e as sombras mudam qualquer um que não esteja preparado, Stephen — alerta Yasmim, encarando-o diretamente. — É por isso que você precisa dominar o seu gelo e a luz da Lua. Para não deixar a história se repetir com você.
Yasmim dá um sorriso de canto, balançando a cabeça diante da menção à própria irmã. O tom gélido e solene dá lugar a uma cumplicidade antiga, típica de quem conhece cada pedaço daquela loucura.
— Louca, idiota e absolutamente perigosa... — concorda Yasmim, soltando um riso abafado. — Mas você tem toda a razão: a Christyane sempre foi esperta demais. Poderosa ao ponto de dobrar as sombras e fazer o próprio reino tremer. Se ela não tivesse essa força toda e não tivesse aprontado o que aprontou, nada disso precisaria ter sido erguido. Você é o resultado direto de tudo o que ela construiu e de tudo o que a gente precisou proteger.
Stephen olha para Yasmim, sentindo o peso e o orgulho dessa herança. A imagem da mãe como a "Rainha das Flores" louca e brilhante agora faz sentido dentro do poder que fervilha em suas próprias veias.
— Então eu carrego a esperteza dela... e o controle da Lua para não surtar igual — conclui Stephen, esboçando um leve sorriso.
— Exatamente — responde Yasmim, com o olhar brilhando sob a coroa de cristais. — A genialidade dela está em você, garoto. Agora cabe a nós garantir que você use essa força para dominar as sombras, e não para deixar que elas dominem você.
Yasmim se vira com elegância e olha diretamente para Sirena, que surge das sombras prateadas do santuário.
— Sirena, escute bem — ordena Yasmim, a voz firme e ressonante. — Vá com o Stephen agora. Encontre o Oliver na Floresta Negra e esse garoto é um bruxinho extremamente poderoso e a Floresta Negra o protege... afinal, ele tem uma ligação direta com a Christyane.
Sirena faz uma reverência solene, compreendendo a importância da missão. Ela se aproxima de Stephen e coloca a mão em seu ombro.
— Se o Oliver está na Floresta Negra — diz Stephen, ajustando a postura enquanto o frio e as sombras ao seu redor ganham uma estabilidade nova —, significa que ele conhece os atalhos e os perigos que a minha mãe deixou para trás.
— Vá, Stephen — reforça Yasmim, com os cristais da coroa cobrindo o local com um brilho protetor. — A Floresta Negra não vai dobrar você se você mantiver o gelo firme e a mente protegida pela luz da Lua. Traga o Oliver em segurança.
Um vórtice de luz prateada e névoa escura se abre ao redor de Sirena e Stephen. Em um piscar de olhos, o santuário lunar fica para trás, e os dois desembarcam na entrada da densa, gélida e misteriosa Floresta Negra. As árvores seculares parecem sussurrar ao vento, e a energia antiga de Christyane e dos lobos flutua por entre as sombras.
A névoa densa e escura se enrosca entre os troncos retorcidos das árvores seculares da Floresta Negra. O ar ali é pesado, carregado com o cheiro de terra molhada, neve e uma magia antiga que faz a pele formigar.
Sirena para de repente, segurando firme o braço de Stephen. Os olhos dela examinam a escuridão ao redor com extrema cautela antes de sussurrar:
— Cuidado, Stephen... A Floresta Negra é o domínio da sua mãe. Ela parecia ter magia demais até para não pirar aqui dentro. Cada árvore, cada sombra dessa floresta se lembra do poder dela e responde à vontade da Rainha de Obsidiana.
Stephen sente o sangue pulsar mais forte. Ao redor de seus pés, uma camada fina de gelo negro começa a estalar no chão folhado, como se a própria terra estivesse reconhecendo o herdeiro de Christyane. O vento uiva ao longe, trazendo um som que lembra o uivo de lobos misturado a sussurros em uma língua esquecida.
— A energia dela está em todo lugar — murmura Stephen, mantendo o foco para não deixar as sombras da floresta invadirem sua mente. — Mas o Oliver está aqui. Se essa floresta o protege, é porque ele sabe como andar entre essas sombras sem se perder.
— Fique atento — avisa Sirena, invocando uma lâmina de luz prateada para iluminar o caminho. — A floresta vai testar o seu sangue antes de nos deixar chegar até ele.
Entre os arbustos cobertos de geada negra, dois olhos brilhantes sobem na escuridão, acompanhados por uma silhueta alta que observa os dois se aproximando.
