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Chapter 16 - Ecos da Floresta Negra

No instante em que o colar da lua é colocado de volta no pescoço e a coroa de cristais azuis repousa sobre sua cabeça, o brilho prateado e gélido retorna com força total. A aura negra e o tom vermelho de ódio nos olhos se esvaem, contidos e selados instantaneamente pela magia purificadora dos artefatos.

​Stephen respira fundo, ainda impressionado com a demonstração de poder cru que acabou de presenciar. A sala do santuário volta ao seu equilíbrio habitual de serenidade e luz prateada, embora o ar ainda guarde o peso da revelação.

​— É isso, Stephen. Esse é o meu passado... — diz Yasmim, ajustando a coroa com passos firmes. — Sua mãe é assim, sem controle. Sem esses artefatos para guiar e refrear a magia, a força que corre no nosso sangue consome tudo ao redor e nos transforma naquilo que mais tememos.

​Stephen olha para as próprias mãos, compreendendo finalmente a constante luta interna de sua família e o verdadeiro motivo de precisar da luz lunar para não se perder na própria escuridão.

​— Então a coroa e o colar não servem só para atacar... — murmura Stephen, a voz mais calma e compenetrada. — Eles servem para proteger a própria mente.

​— Exatamente — confirma Yasmim. — E é esse mesmo controle que vou ensinar você a construir, para que nunca precise depender de artefatos ou cair nas armadilhas da Morgana e do Maycon.

Uma risada leve escapa do peito de Yasmim ao lembrar do passado, quebrando por um instante o clima denso do santuário.

​— Sua mãe controla as trevas hoje... ela tem um colar de obsidiana e a coroa das trevas — conta Yasmim, os olhos resgatando memórias muito antigas. — Mas antes? Ela era igualzinha a você: inocente, vivia correndo atrás de um lobo e andava para cima e para baixo com uma coroa horrorosa de flores! Eu morria de alergia àquilo, a Christyane era simplesmente impossível... haha. Eu adorava provocá-la chamando de "Rainha das Flores".

​A expressão de Yasmim volta a ficar um pouco mais séria, com o olhar perdido na luz prateada que flutua pelo local.

​— Só que, assim que ela conheceu o Rei Maycon e aprendeu as artes antigas de falar com as sombras e com os lobos... ela pirou. O poder subiu à cabeça, os pesadelos dominaram a mente dela e a garota das flores sumiu para dar lugar à rainha de obsidiana.

​Stephen escuta tudo em silêncio, tentando imaginar a mãe — aquela de quem todos falam com pavor — correndo pelos campos com uma coroa de flores e brincando com lobos.

​— Uma coroa de flores... — murmura Stephen, incrédulo. — É difícil imaginar ela assim antes de virar a rainha de obsidiana.

​— O veneno do Maycon e as sombras mudam qualquer um que não esteja preparado, Stephen — alerta Yasmim, encarando-o diretamente. — É por isso que você precisa dominar o seu gelo e a luz da Lua. Para não deixar a história se repetir com você.

Yasmim dá um sorriso de canto, balançando a cabeça diante da menção à própria irmã. O tom gélido e solene dá lugar a uma cumplicidade antiga, típica de quem conhece cada pedaço daquela loucura.

​— Louca, idiota e absolutamente perigosa... — concorda Yasmim, soltando um riso abafado. — Mas você tem toda a razão: a Christyane sempre foi esperta demais. Poderosa ao ponto de dobrar as sombras e fazer o próprio reino tremer. Se ela não tivesse essa força toda e não tivesse aprontado o que aprontou, nada disso precisaria ter sido erguido. Você é o resultado direto de tudo o que ela construiu e de tudo o que a gente precisou proteger.

​Stephen olha para Yasmim, sentindo o peso e o orgulho dessa herança. A imagem da mãe como a "Rainha das Flores" louca e brilhante agora faz sentido dentro do poder que fervilha em suas próprias veias.

​— Então eu carrego a esperteza dela... e o controle da Lua para não surtar igual — conclui Stephen, esboçando um leve sorriso.

​— Exatamente — responde Yasmim, com o olhar brilhando sob a coroa de cristais. — A genialidade dela está em você, garoto. Agora cabe a nós garantir que você use essa força para dominar as sombras, e não para deixar que elas dominem você.

Yasmim se vira com elegância e olha diretamente para Sirena, que surge das sombras prateadas do santuário.

​— Sirena, escute bem — ordena Yasmim, a voz firme e ressonante. — Vá com o Stephen agora. Encontre o Oliver na Floresta Negra e esse garoto é um bruxinho extremamente poderoso e a Floresta Negra o protege... afinal, ele tem uma ligação direta com a Christyane.

​Sirena faz uma reverência solene, compreendendo a importância da missão. Ela se aproxima de Stephen e coloca a mão em seu ombro.

​— Se o Oliver está na Floresta Negra — diz Stephen, ajustando a postura enquanto o frio e as sombras ao seu redor ganham uma estabilidade nova —, significa que ele conhece os atalhos e os perigos que a minha mãe deixou para trás.

​— Vá, Stephen — reforça Yasmim, com os cristais da coroa cobrindo o local com um brilho protetor. — A Floresta Negra não vai dobrar você se você mantiver o gelo firme e a mente protegida pela luz da Lua. Traga o Oliver em segurança.

​Um vórtice de luz prateada e névoa escura se abre ao redor de Sirena e Stephen. Em um piscar de olhos, o santuário lunar fica para trás, e os dois desembarcam na entrada da densa, gélida e misteriosa Floresta Negra. As árvores seculares parecem sussurrar ao vento, e a energia antiga de Christyane e dos lobos flutua por entre as sombras.

A névoa densa e escura se enrosca entre os troncos retorcidos das árvores seculares da Floresta Negra. O ar ali é pesado, carregado com o cheiro de terra molhada, neve e uma magia antiga que faz a pele formigar.

​Sirena para de repente, segurando firme o braço de Stephen. Os olhos dela examinam a escuridão ao redor com extrema cautela antes de sussurrar:

​— Cuidado, Stephen... A Floresta Negra é o domínio da sua mãe. Ela parecia ter magia demais até para não pirar aqui dentro. Cada árvore, cada sombra dessa floresta se lembra do poder dela e responde à vontade da Rainha de Obsidiana.

​Stephen sente o sangue pulsar mais forte. Ao redor de seus pés, uma camada fina de gelo negro começa a estalar no chão folhado, como se a própria terra estivesse reconhecendo o herdeiro de Christyane. O vento uiva ao longe, trazendo um som que lembra o uivo de lobos misturado a sussurros em uma língua esquecida.

​— A energia dela está em todo lugar — murmura Stephen, mantendo o foco para não deixar as sombras da floresta invadirem sua mente. — Mas o Oliver está aqui. Se essa floresta o protege, é porque ele sabe como andar entre essas sombras sem se perder.

​— Fique atento — avisa Sirena, invocando uma lâmina de luz prateada para iluminar o caminho. — A floresta vai testar o seu sangue antes de nos deixar chegar até ele.

​Entre os arbustos cobertos de geada negra, dois olhos brilhantes sobem na escuridão, acompanhados por uma silhueta alta que observa os dois se aproximando.

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