A trilha que levava à Garganta do Ferro era íngreme e escorregadia, enlameada pela umidade residual da nascente bloqueada. O cheiro era pesado: lama, mato podre e a acidez nauseante do suor goblin. A hora era a mais fria antes do amanhecer.
Leo, Luna e Bob subiram o desfiladeiro pela rota menos visível que Luna havia traçado. Luna estava à frente, seus olhos lilases absorvendo o ambiente.
— A barricada principal é logo ali, na curva da rocha — sussurrou Luna, a voz fina e tensa. — O Shaman está atrás dela. O Hobgoblin está na frente. O plano é este: Sinfonia da Sombra e do Vento.
Luna detalhou o ataque, sua voz tática cortando a escuridão. — Bob, você começa. Use o Vento para dispersar o fogo das tochas, tirando a visão deles. Imediatamente após, ative a Água para criar uma névoa densa. O objetivo é a confusão total. Leo, você usa essa cortina de fumaça e a minha Sombra para flanquear à direita, mirando o Hobgoblin. Ele é a ameaça física. Eu vou usar a Magia das Trevas para atrasar os Goblins rasos. Vingança contra o Hobgoblin. Anulação do Shaman. Bob, a sua jogada de Raio é o golpe final no Xamã, mas só depois que Leo o expor.
Leo assentiu, sentindo o Arcano I – O Mago se manifestar, a energia fluindo para a katana. — Entendido. Vamos entrar em silêncio.
Bob respirou fundo. O Vento se acumulou ao seu redor, invisível, mas palpável.
FASE 1: SINCRONIA QUEBRADA
O ataque começou. Bob liberou o Vento com precisão cirúrgica. As tochas dos Goblins, que iluminavam a barricada de pedra e couro, foram apagadas instantaneamente, atirando faíscas no ar úmido. A escuridão total engoliu o desfiladeiro.
Em seguida, Bob canalizou a Água. Uma névoa fria e densa se ergueu do chão enlameado, cortando a visibilidade a zero e o som a um sussurro. O Comandante Diegão havia subestimado a sincronia do trio.
— AGORA! — sibilou Luna.
Luna ativou o lado mais sutil de sua Magia das Trevas. Ela não criou sombras; ela criou ausência. Linhas de escuridão profunda se esticaram e se enredaram em torno dos Goblins mais próximos da barricada, fazendo com que eles parassem, desorientados, o cérebro incapaz de processar a localização do próprio corpo.
Leo, envolto em uma fina camada de Sombra para silenciar seus passos e usando a previsão (a Sacerdotisa) para traçar o caminho mais seguro, avançou em velocidade máxima. Ele podia ouvir os Goblins gritando em sua língua gutural, mas a névoa de Bob amplificava o pânico e abafava o som real.
O Hobgoblin era grande e brutal, com uma clava de osso e armadura remendada. Ele sentiu o ataque chegando, mas a névoa e a escuridão de Luna o enganavam. Ele estava prestes a levantar a clava para acertar o chão.
Foi nesse momento que o plano falhou.
Um Goblin raso, que não estava preso pela Magia das Trevas de Luna, mas apenas confuso, tropeçou em um barril de lixo, fazendo um barulho seco e agudo. O Hobgoblin ouviu e girou sua clava na direção do som. Não era Leo, mas era perto o suficiente.
Leo teve que desviar do golpe com a katana, e a clava de osso raspou seu ombro, rasgando o uniforme. A dor foi aguda, e a velocidade do ataque o forçou a recuar da posição ideal.
— Leo, fora do plano! — gritou Luna, a voz tensa.
Não havia tempo para o ataque planejado no Hobgoblin. Leo tomou a decisão imediata: atacar o Xamã. O Arcano I – O Mago explodiu em seu corpo. Ele usou a sinergia de Fogo e Raio em sua katana, lançando-se sobre a barricada.
O Goblin Shaman estava agachado, cantando em uma língua antiga e profana, usando um cajado de osso para manipular o fluxo da água e manter a barreira de lama. Ele era o ponto de controle.
Leo cortou. O ataque de Fogo/Raio atingiu o braço do Shaman, quebrando o osso. O Shaman gritou, a magia de terra vacilando.
Foi o sinal de Bob.
Bob, vendo a abertura, liberou toda a sua reserva de Raio através da névoa de Água. O Raio viajou pelo ar úmido e atingiu o Xamã com uma descarga azul-branca, cozinhando-o instantaneamente. O cajado de osso se partiu.
Com a morte do Shaman, o feitiço de Terra que bloqueava a água se desfez. A água começou a jorrar violentamente do rochedo, rompendo a barricada de lama e pedra. A água fria desceu pelo desfiladeiro, levando os Goblins remanescentes e o Hobgoblin.
Em minutos, a luta acabou. O trio estava exausto, ofegante e molhado. A água estava voltando para Campanus.
— Conseguimos — ofegou Luna, mal conseguindo ficar de pé, a mana quase esgotada.
Bob estava pálido pelo gasto de Raio. Leo limpou o sangue do ombro. O silêncio voltou, quebrado apenas pelo som revigorante da água correndo.
FASE 2: A FÚRIA DOS ORCS NÔMADES
O alívio durou menos de dez segundos.
O som veio da trilha principal acima do desfiladeiro: passos pesados, ritmados e poderosos que não pertenciam a Goblins nem a Hobgoblins. Não era uma horda; era uma unidade de execução.
Eram cinco Orcs Nômades. Eles não vestiam armaduras formais; usavam couros e peles rústicas, mas seus músculos eram pura força bruta, definidos pela vida de caça e combate. Eles tinham mandíbulas salientes, presas de marfim, e olhos vermelhos de pura fúria. Eram o epítome do poder físico sem magia, a antítese do estilo tático e arcano do time Master X.
Eles não carregavam armas elegantes. Usavam machados de pedra rústica e clavas reforçadas com ferro. O líder Orc olhou para o desfiladeiro, viu o Xamã Goblin morto e o fluxo de água restaurado.
— TRAIÇÃO! — O grito do líder Orc era um trovão gutural, um som que Leo sentiu vibrar no peito.
Os Orcs desceram o desfiladeiro com a velocidade e o ímpeto de um deslizamento de rochas. Eles eram frescos; o trio estava exausto. A energia de Leo e Luna estava no limite; Bob tinha pouca mana para defesa sustentada.
— Formação de Defesa! — gritou Leo, mas era tarde demais.
O Orc líder ignorou os homens e mirou a ameaça mágica: Luna. Ele era uma montanha de músculo, e seu machado era grande como a cabeça de Bob.
Luna tentou canalizar a Magia das Trevas para criar uma barreira, mas seu mana estava esgotado. A barreira se desfez em fumaça. O Orc a acertou não com o machado, mas com o ombro, em um golpe de aríete brutal.
O som do impacto foi como madeira quebrando. Luna foi arremessada contra o rochedo, um filete de sangue escorrendo do canto de sua boca. Ela caiu, inconsciente.
CLÍMAX: O HIEROFANTE ENFURECIDO
A visão de Luna caída, pálida e ensanguentada, quebrou a pouca compostura que restava em Leo Veyndril. A raiva o atingiu como um trovão, uma fúria primária e cega que não era tática nem Arcano. Era pessoal.
— LUNA!
A dor na garganta de Leo e o choque de adrenalina silenciaram todo o pensamento racional. Ele canalizou tudo. Não apenas o Arcano I – O Mago, mas o Arcano IV – O Imperador (Proteger a Matilha) e a própria essência destrutiva do Arcano 0 – O Louco.
O Hobgoblin que havia sobrevivido à inundação e ao Xamã estava se levantando, confuso. Os outros quatro Orcs estavam ocupados com Bob, que usava o resto de sua força para criar um Escudo de Água instável contra a fúria física deles.
Leo ignorou os Orcs. Ele correu em direção ao Orc mais próximo, aquele que havia derrubado Luna, e soltou toda a reserva de Caos em sua katana.
— ASSIMILAÇÃO ARCANISTA! — gritou Leo.
Não era apenas Fogo e Raio. Era uma explosão instável de mana pura, amplificada pelo Arcano 0, que Leo usava como combustível. Ele cortou, não na armadura, mas na garganta do Orc.
O golpe foi uma anomalia: a espada de Leo atravessou a pele grossa do Orc e atingiu a jugular. O Orc cambaleou, o sangue negro jorrando. O corpo dele, puro músculo e resistência, lutou contra a morte por dez segundos antes de cair de joelhos, imóvel.
Leo Veyndril havia matado um Orc Nômade. Ele estava em pé, ofegante, a katana pingando.
Mas havia outros quatro Orcs e o Hobgoblin. Bob, esmagado pelo peso dos ataques físicos, estava prestes a ceder, o escudo falhando. Os quatro Orcs olharam para Leo com a fúria de quem havia perdido um irmão.
Os Orcs avançaram. Leo, com o mana esgotado e a adrenalina sumindo, sentiu o peso da derrota inevitável.
O RESGATE DE CINCO ESTRELAS
Foi então que o ambiente mudou. Não houve som, nem explosão, nem teletransporte. Apenas uma pressão atmosférica esmagadora.
Os quatro Orcs e o Hobgoblin pararam. Seus corpos, que ignoravam a magia comum, foram forçados a se curvar sob uma mana que era tão pura e concentrada que afetava o ar que respiravam. O chão do desfiladeiro tremeu.
— Isso é o limite. —
A voz, vinda do topo do desfiladeiro, era melódica, mas fria como gelo, tingida de uma autoridade que superava a de qualquer Mestre Orc.
Ainar Stellarion estava no pico da rocha, seu sobretudo azul-petróleo tremulando no vento inexistente. Ele não estava sujo; não estava ofegante. Ele parecia ter saído de uma galeria de arte.
Ele não fez um movimento mágico. Apenas levantou a mão, e o ar ao redor dos Orcs condensou em uma prisão invisível. Os Orcs rugiram, tentando se libertar, mas a mana pura era uma parede impenetrável.
— Quatro Orcs Nômades. Um Hobgoblin. E uma recém-formada inconsciente. Isso, Mestre Draven, transcende o Rank B. É um assunto da Guilda.
Ainar olhou para Leo, que mal conseguia ficar em pé, protegendo Luna.
— Vocês sobreviveram à infestação de goblins. Restabeleceram a água. E, o mais importante, eliminaram uma ameaça Orc.
Ainar desceu, flutuando sobre a água corrente. Ele olhou para o Orc morto, o único que Leo havia derrubado, e um sorriso de orgulho genuíno, misturado com seu usual desdém, surgiu em seu rosto.
— Trabalho bem feito, time Master X. Venceram a praga. Agora, vamos lidar com a causa dela. E essa causa, Veyndril, me deve uma explicação.
O Mestre da Master X havia chegado.
