O som do respirador e o bip distante dos monitores do hospital desapareceram.
Stephen não sentia mais o peso gessado sobre as pernas, nem a queimação da carne rasgada. A escuridão fria da UTI abriu espaço para uma imensidão sem paredes. O ar ali não tinha o cheiro de antisséptico ou de sangue; cheirava a terra úmida, neve fresca e pinheiros.
Pela primeira vez em toda a sua vida, ele não estava sobre as tábuas de um palco sob a pressão de aplausos ou julgamentos.
Diante dele, a névoa densa começou a se dissipar, revelando um vislumbre de um destino totalmente novo — um caminho onde seu corpo não precisava ser destruído para ter valor. Naquele limiar entre a vida e a morte, no ponto exato em que a dor o libertara da realidade, uma figura imponente emergiu do meio das sombras da floresta.
Não era a mulher do sobretudo preto, mas uma presença selvagem e majestosa: a loba Sirena. Seus olhos brilhavam com a mesma intensidade verde que o perseguia desde a infância, mas não havia ameaça em seu olhar, apenas um convite silencioso para o verdadeiro despertar.
Stephen compreendeu então que a tragédia no recital não fora o fim de sua história. Fora apenas o colapso da ilusão de que a sua vida dependia de uma plateia.
