A voz de Sirena ainda vibrava nos ossos de Stephen quando a tempestade de neve começou a rugir.
As montanhas da Sibéria erguiam-se como garras de pedra e gelo contra um céu tingido em tons de violeta e escuridão. O vento uivava, mas Stephen não sentia o frio cortante do mundo dos vivos. Ele não vestia os trajes de ensaio, nem trazia as ataduras do hospital; seus pés pisavam a neve profunda com uma firmeza que nunca tivera nos palcos.
No topo da cordilheira, envolta por uma bruma prateada, a visão finalmente se revelou.
O castelo da Tia Yasmim não fora erguido por mãos humanas. Suas torres eram agulhas de gelo translúcido que perfuravam as nuvens, refletindo uma luz própria, fria e ancestral. Portões de ferro negro ornamentado guardavam a entrada, cobertos por geada e gravados com runas que Stephen não sabia ler, mas que sua alma parecia reconhecer instantaneamente.
Era uma fortaleza monumental, isolada do resto do mundo, imponente e inabalável — o oposto exato da fragilidade do quarto de UTI onde seu corpo humano repousava.
Ao olhar fixamente para as janelas mais altas do castelo, Stephen viu a silhueta de uma mulher elegante aguardando na sacada. Ao lado dela, a grande loba de olhos verdes uivava para a imensidão branca, convocando o menino das trevas a atravessar a tempestade e reivindicar o seu lugar.
Stephen deu o primeiro passo em direção aos portões, consciente de que, ao cruzar o limiar daquela visão, a vida do antigo bailarino ficaria para trás para sempre.
