Stephen deu um passo para trás, encarando as próprias mãos enquanto as sombras ainda flutuavam e se moldavam ao redor dos seus dedos. A mente dele, habituada à disciplina rígida do balé e à lógica da dor física, tentava assimilar a magnitude daquela revelação.
— Stephen como? — sussurrou ele, a voz falhando em meio ao estalar de geada e ao silêncio denso do salão. — Eu não sei... Eu não sei como controlar isso, Yasmim. Tudo o que eu conheço é a dança, a dor do palco e a fragilidade do meu corpo.
Yasmim virou-se lentamente. Seu olhar não trazia nem pena nem dúvida, apenas a serenidade austera de quem conhecia a verdadeira extensão do sangue que fluía nas veias do garoto. Ela caminhou em direção à grande janela em arco do castelo, onde a tempestade da Sibéria dava lugar a um céu noturno dominado por uma lua prateada e gigantesca.
— Como? — repetiu Yasmim, sem olhar diretamente para ele, mas apontando com a mão de pele pálida para a imensidão lá fora. — Isso não é algo que se ensina em uma sala de ensaios ou através de comandos humanos, Stephen. Isso só a Lua e as Trevas podem te ensinar.
A loba Sirena deu um passo à frente, uivando baixinho em sintonia com o brilho prateado que invadia o salão. Ao mesmo tempo, a figura de Morgana deu um passo vindo do canto mais escuro do ambiente, os olhos verdes cintilando com aprovação sob o capuz do sobretudo preto.
Stephen olhou para o alto, para a luz prateada que atravessava o vitral de gelo, e sentiu o calor gelado da magia fluir do peito até as pontas dos pés. Ele já não precisava do palco; a própria noite havia se tornado o seu novo domínio.
